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18/07/2023 - 11h12 Artigos

Condutas de saúde mental para colaboradores neurodivergentes precisam de mais atenção das empresas

É preciso desmistificar os estereótipos causados por desinformações, diz a psiquiatra Camila Magalhães Silveira


 

 

 

Por Camila Magalhães Silveira*

 

 

 

A neurodiversidade é um termo utilizado para compreender as variações das habilidades cognitivas e funcionamento mental de um indivíduo. Pessoas neurodivergentes possuem mecanismos no funcionamento cerebral diferentes, essas diferenças podem incluir dislexia, autismo, transtorno de déficit de atenção, entre outras.

 

Um tema cada vez mais relevante é a conscientização e inclusão de pessoas neurodivergentes no mercado de trabalho. Dados da ABDA (Associação Brasileira do Déficit de Atenção) revelam que, atualmente, o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) atinge dois milhões de pessoas. Além disso, 85% dos brasileiros que possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) estão desempregados.

 

Embora o número de desempregados seja alto, temos acompanhado o quanto as empresas estão empenhadas na inclusão e contratação de pessoas neurodivergentes. No entanto, algumas companhias enfrentam inúmeros desafios para lidar com as especificidades de cada colaborador. Para isso, é necessário quebrar paradigmas, proporcionar um ambiente acolhedor, treinar as equipes e lideranças, e promover conteúdo que desmistifique os estereótipos causados por desinformações.

 

É importante compreender que o sofrimento emocional no ambiente de trabalho não pode ter sua detecção, compreensão ou "resolução" calcada apenas na perspectiva individual, nem mesmo deve ser de responsabilidade exclusiva da empresa. Sendo assim, é preciso considerar o ambiente de trabalho como um todo e ter cautela para que a iniciativa não se torne uma falsa inclusão.

 

Outro ponto importante é o fato de que as companhias podem prestar apoio ao funcionário, se ele assim desejar, porém, o diagnóstico precisa ser tratado com discrição, respeitando o desejo do trabalhador neurodivergente, que deve ter consciência sobre se adaptar na sua realidade, tendo sempre as questões emocionais ou diagnósticas reservadas.

 

Como especialista em saúde mental, posso dizer que nenhum desses quadros impede ou prejudica o indivíduo a desenvolver seu papel no trabalho. Mas, caso o colaborador tenha interesse, o psiquiatra pode dialogar com o médico do trabalho para melhorar condições ambientais e da rotina que ampliem o conforto emocional do colaborador e suas atividades.

 

Para isso, o especialista deve encontrar um caminho para dialogar com a equipe de RH da empresa que, previamente preparada, poderá prosseguir com adaptações como ajustes de horários, período, modelo de apresentação de entregas, formato mais efetivo de comunicação (verbal e não verbal).

 

A atenção das empresas dentro desse contexto deve ser a de que é preciso contemplar a participação de todos os colaboradores, além das lideranças, RH e experts no assunto.

 

Um método eficaz para conhecer o ambiente é aplicar um screening de saúde mental ou questionário de clima organizacional, que auxiliam no entendimento dos aspectos relacionados do indivíduo versus fatores relacionados ao trabalho e rastreiam possíveis demandas de saúde mental das equipes. Com acesso ao cenário analisado, a empresa poderá recorrer às abordagens e intervenções que possibilitem melhorias no ambiente de trabalho. O objetivo não é a saúde mental individual, mas ter uma compreensão ampliada dos grupos para que intervenções assertivas de promoção e prevenção para um ambiente sustentável emocionalmente possam ser executadas no coletivo.

 

Embora essa iniciativa seja eficaz, é preciso realizá-la com sigilo e cautela, de forma que os resultados sejam uma maneira de amenizar os problemas, garantindo rotas de cuidados importantes como atendimento psiquiátrico para que o sofrimento agudo ou crônico possa ser tratado.

 

Existe um equívoco comum de que as pessoas com transtornos mentais não se desenvolvem de modo satisfatório na vida profissional, colocando a falsa ideia de que esses colaboradores podem ser menos produtivos e difíceis de se adaptarem em grupo. No entanto, isso é um grande engano! Todos os transtornos mentais possuem tratamento e com direcionamento correto resultam em uma melhora significativa para o desenvolvimento humano e social de todos os indivíduos, devolvendo melhores condições de vida e saúde mental àqueles que estavam em sofrimento emocional, dificuldades laborais ou interpessoais.

 

 

 

*Camila Magalhães Silveira é psiquiatra e cofundadora da Caliandra Saúde Mental

 

 

Foto: Divulgação/Caliandra

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