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13/08/2021 - 10h51 Artigos

Feedback e a arte da leitura de cenários

Embora peça, nem sempre o líder está preparado para a sinceridade, diz Marcelo Madarász


 

 

Por Marcelo Madarász*

 

Há competências que passam a ser mais ou menos valorizadas dependendo do momento que estamos vivendo. No cenário atual, uma série de competências ligadas às soft skills, à gestão de pessoas, à comunicação, ao exercício da liderança passou a ser exigida e absolutamente necessária para todos os negócios. Do líder, um conjunto revisitado de ferramentas é exigido, pois, sem elas, ele não conseguirá exercer seu ofício. Todos os líderes que fazem a gestão de pessoas sabem que a arte de dar e receber feedack está há muito tempo na lista de exigências básicas e com os estudos do comportamento das novas gerações, sabe-se que há uma sede intensa para que eles sejam dados com frequência alta e com muita qualidade. Por esse motivo, há em abundância bibliografia e cursos com o objetivo de preparar os líderes a utilizar essa tão importante ferramenta de desenvolvimento, que, aliada ao processo de autoconhecimento, fará a diferença na evolução pessoal e profissional.

 

Muito antes disso ser experimentado quando se torna líder, na educação dos filhos e mesmo nas relações entre as pessoas, o feedback pavimenta a jornada de contribuição com o crescimento do outro, a partir da possibilidade que você dá a ele de ter outras perspectivas, outros pontos de vista, acesso ao que ele nem sempre tem.  É um processo muito rico, se bem utilizado.

 

Quem está inserido no mundo organizacional sabe que nem sempre essa ferramenta é usada em sua plenitude e muitas empresas ainda sofrem por possuirem um processo muito burocrático, que faz com que energia e tempo preciosos sejam gastos de forma desnecessária e, o que é pior, sem resultados efetivos ou, ainda, resultados contrários aos desejados. É o famoso processo feito para cumprir tabela ou para inglês ver.

 

Por outro lado, em muitas empresas houve uma evolução bastante significativa e esse processo de avaliação de desempenho com consequente feedback passou a ser um dos principais instrumentos de desenvolvimento dos liderados. Além do líder ter que contar com sua bagagem e experiência, é fundamental que conheça o mais profundamente possível seus liderados, bem como suas aspirações, desejos, seu lado luz, seu lado sombra, suas crenças, se há crenças limitantes, seus valores. E isso só é conquistado ao longo do tempo, quando há confiança e permissão de exposição de vulnerabilidades. Felizmente, há uma evolução no próprio exercício da liderança.

 

Além do feedback como parte do relacionamento líder-liderado, outro aspecto muito interessante está relacionado com algo que não aprendemos em nossos cursos, mas que deveria ser parte fundamental do currículo acadêmico: a leitura de cenários e o gerenciamento dos egos.

 

Muitos líderes, principalmente aqueles que ocupam posições do topo hierárquico, entram na onda do pedido de feedback, mas nem sempre estão verdadeiramente preparados para receberem um feedback negativo. Passam uma imagem de humildade e preparo quando, na verdade, não conseguem administrar seu próprio ego ao ouvir algo com o qual não concordam.

 

O poder verdadeiramente inebria e entorpece quem não está com seu nível de consciência à altura do cargo. Muitos CEOs, ao chegarem na posição, deixam de ouvir verdades de seus colaboradores, que passam a falar apenas aquilo que julgam que seu líder quer ouvir e, com isso, a hipocrisia vai ganhando formas e cada vez menos a verdade é dita. Quando isso acontece, cria-se um permanente baile de máscaras e o ambiente deixa de ser psicologicamente seguro.

 

O que o RH pode fazer para contribuir na criação de um ambiente saudável, além de salvaguardar a própria lucidez e das pessoas da organização? Continuar conectado à sua essência e de forma muito cuidadosa, dar luz à verdade.

 

Claro que para isso é necessário fazer uma boa leitura de cenários. Há espaço para ser verdadeiro ou a verdade é indesejada? Há uma parábola judaica muito interessante, contada pelo rabino Nilton Bonder no livro A Cabala da Inveja, que mostra o comportamento de alguns líderes.

 

Certa vez, um leão resolveu não buscar alimentos até que o hálito de sua boca não estivesse mais doce. Encontrou uma mula e disse-lhe: “Coloca tua cabeça próxima à minha boca e diz-me se meu hálito é doce.” A mula fez o que lhe pedira e respondeu negativamente. “Como te atreves a insultar-me?”, exclamou o rei dos animais, e imediatamente devorou a mula. Alguns dias mais tarde, o leão encontrou-se com um lobo e colocou-lhe a mesma questão. O lobo respondeu afirmativamente. “Como te atreves a mentir para mim?”, rugiu o leão, e devorou-o logo a seguir. Passado algum tempo, questionou uma raposa, animal dado a não se deixar enredar em situações complicadas. “Desculpa-me”, disse a raposa, “estou gripada e perdi meu olfato.” “Adquiram para vocês também”, disse o Rabi Meir aos discípulos, “uma gripe conveniente e serão salvos do leão.”

 

É importante saber quando falar o que para quem e se você entender que definitivamente não há espaço para você contribuir com a verdade, em momento nenhum, talvez o mais adequado seja manter-se fiel aos seus valores e tirar seu time de campo.

 

*Marcelo Madarasz é diretor de RH para a América Latina da Parker Hannifin

 

Foto: Rogério Motoda

 

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