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03/12/2018 - 08h00 Artigos

O que a China pode ensinar ao mundo sobre inovação?


Por Alexandre Pierro*
 
Todo mundo sabe que a China é a economia que mais cresce no mundo. Atualmente, o país representa 40% de todas as transações de comércio eletrônico no planeta, e quase um terço do consumo de luxo mundial. É a nação com o maior número de “unicórnios” (startups com valorização de mercado superior a US$ 1 bilhão), cerca de 164, enquanto o Brasil tem apenas três. A verdade é que, além de rica, a China preza pelo desenvolvimento, pela tecnologia e, acima disso, pela inovação. Um dos projetos atuais do país é se tornar líder em aplicações de inteligência artificial até 2030, tornando-se o principal polo mundial do gênero.
 
Porém, como isso é possível? Um país que até a década de 1980 era basicamente rural, hoje é líder em tecnologia e inovação, e tem dinheiro para continuar injetando em sua economia de forma quase milagrosa. A verdade é que sua grande virada veio com um investimento feito nessa época. Um investimento feito em gestão.
 
Todos sabem que o governo chinês tem mão ativa na economia. É o modelo de produção que o país adotou. Porém, independente disso, ações de incentivo podem ser tomadas por qualquer governo que busque crescimento. São elas que se destacam, abrindo espaço para o crescimento de um mindset inovador. Em 20 anos, a nação chinesa quintuplicou seu PIB, focando na gestão e melhoria de qualidade. Agora, o país se prepara para um novo salto, mirando as estratégias voltadas à inovação.
 
Um exemplo de incentivo interessante é o da cidade portuária de Hangzhou, onde fica o grupo Alibaba, uma das maiores redes varejistas do mundo. O local tinha inúmeros depósitos desativados que o governo local transformou em uma área de startups. Hoje, o local é chamado de Dream Town, tendo mais de 1.600 startups sediadas - sendo que mais de 4 mil já passaram por lá desde 2015. O espaço, inutilizado anteriormente, hoje conta com isenção para ocupação, além de acesso gratuito à nuvem de dados por três anos para qualquer empresa iniciante. Isso sem contar o fundo anjo de US$ 70 milhões, que atende ao país todo.
 
O governo incentiva as iniciativas e prepara um solo fértil, possibilitando a proliferação de empresas inovadoras. Os governantes enxergaram o potencial de médio e longo prazo e começam a atuar com planos agressivos de gestão. É bem diferente de países onde abrir uma empresa e sobreviver é um desafio tão grande, que chega a parecer que a gestão pública está lutando contra o empresário.
 
Além disso, há outros fatores que são próprios do modo chinês de pensar e trabalhar que garantem esse crescimento. Antigamente, um produto “Made in China” era sinônimo de uma cópia mal feita. Isso porque, culturalmente falando, copiar nunca foi um tabu para eles. Aqui, onde a luta pelo direito autoral vigora, vemos isso como um desrespeito e um crime. Lá, eles enxergam como uma valorização, um reconhecimento do valor de quem criou.
 
Além de copiar, o modelo chinês visa o aperfeiçoamento. Hoje, o país oferta uma cópia mais barata e com pior qualidade de qualquer produto, mas também oferece cópias idênticas e até versões melhoradas do produto copiado. Tem qualidade e preço para qualquer demanda. Foi assim que empresas de telefonia, por exemplo, surgiram. Os chineses pegaram algo que já estava em um nível elevado de tecnologia, e se preocuparam em ir além.
 
Essas ações e criações movimentam o próprio mercado interno do país. Embora tenham largado muito atrás dos países desenvolvidos, cerca de 25% das indústrias chinesas já estão preparadas para a chamada Indústria 4.0. No Brasil, são apenas cerca de 2%.
 
Outro fator interessante é a desigualdade entre salários. Ser um trabalhador de chão de fábrica, o famoso “peão”, não é visto como algo ruim. Há um desejo por crescimento, mas não há o sentimento negativo de “não ser o chefe”. Isso se mostra nos salários, que, diferentemente da maioria dos países, é ridiculamente maior entre um cargo inicial e o de um gerente ou supervisor. Isso permite que as pessoas vivam de forma consideravelmente boa, mantendo uma mão de obra acessível em todos os níveis da empresa.
 
Outro ponto importante é o da obsessão com dados. A coleta e análise deles, o verdadeiro Big Data, realmente funciona na China. Há um interesse por interpretar o que os dados têm a dizer sobre o mercado, a economia, os produtos, os consumidores. Essas informações geram poder e fomentam a inovação.
 
Em suma, fica evidente que o que está levando a China a novos patamares de evolução é o seu mindset voltado à gestão da inovação. O modo de pensar, de enxergar e incentivar ideias em médio e longo prazo foi o que transformou e continuará transformando o país em uma grande potência.
 
No fundo, o que a China pode ensinar ao Brasil e a muitos outros países em desenvolvimento é a necessidade de criar uma nova mentalidade para os negócios. Andar para frente olhando apenas o retrovisor, certamente, não levará ninguém muito longe, além de ser um grande risco. Vale a pena repensar toda a estratégia e caminhar com os olhos no futuro.
 
*Alexandre Pierro é engenheiro mecânico, bacharel em física aplicada pela USP e fundador da PALAS, consultoria em gestão da qualidade e inovação

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