Mulheres sofrem cobrança pelo tom de voz e emoções no ambiente de trabalho
Profissionais seguem sendo julgadas por causa de vieses que podem afetar o desenvolvimento da carreira
No ambiente corporativo, mulheres em cargos de liderança continuam enfrentando um funil de expectativas quase impossível de cumprir. Quando falam de forma firme, são frequentemente rotuladas como "agressivas" e, quando demonstram emoção em situações de pressão, passam a ser vistas como "despreparadas" ou "emocionais demais". A análise é de Juliana Algodoal, especialista em comunicação corporativa e linguagem no trabalho, que chama atenção para a dupla cobrança que recai sobre a voz e as emoções das líderes.
Segundo ela, questionamentos sobre tom de voz e "controle emocional" não são opiniões individuais isoladas, mas o efeito de estruturas de avaliação marcadas por vieses culturais: em muitas empresas, ainda se espera que a fala feminina seja mais doce, acolhedora e musicalizada, ao mesmo tempo em que o estilo considerado “profissional” e “assertivo” segue associado ao modelo masculino de liderança.
Já quando a mulher se emociona, seja numa conversa difícil, numa avaliação de desempenho ou numa apresentação de resultados, a reação comum é classificá‑la como frágil, instável ou pouco preparada para lidar com pressão. Mas quando um homem se emociona, é celebrado como humano e autêntico. Não é a emoção que incomoda.Os mesmos comportamentos são lidos de forma completamente diferente dependendo de quem fala. “Não à toa a comunicação vem sendo tratada como uma ferramenta concreta de equidade de gênero nas organizações", diz Juliana.
Essa lógica gera efeitos concretos. Ela conta que conhece líderes que entregam resultados acima da meta, mas seguem preteridas em promoções por serem vistas como “duras demais”. Em outro extremo, há mulheres que recusam promoções porque sabem que, ao ganhar visibilidade, também serão mais julgadas pela forma como se comunicam, inclusive por outras mulheres.
Outro viés encontra-se na própria mulher. Muitas profissionais, para sobreviver em ambientes mais masculinos, tentam se encaixar em um padrão de liderança que não as representa, engrossando a voz, copiando gestuais relacionados aos homens. Juliana diz que esse movimento é compreensível, mas não resolve o problema.
E não dá para não falar da diversidade dentro do próprio gênero: assim como entre os homens existem mil jeitos de falar, entre as mulheres acontece o mesmo. A solução não é pedir que as mulheres "consertem" sua forma de falar, mas construir ambientes que ampliem o repertório do que é considerado liderança competente.
Nesse sentido, é preciso trabalhar as respostas ao julgamento. Se uma profissional recebe um comentário sobre ser “agressiva” ou “emocional demais”, uma saída é perguntar: “o que exatamente na minha fala te pareceu agressiva?” ou “por que você está lendo a minha reação dessa forma?”. Juliana diz que esse tipo de pergunta obriga o outro a se ouvir e perceber que esperava que aquela mulher falasse de um jeito que não é dela. “Dá trabalho, mas gera reflexão, não só reação”, finaliza a especialista.
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