O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
CEO do Andbank conta como a rotina de ciclismo, triathlons e maratonas contribui no seu desempenho como líder
Por Rodolfo Pousa*
Liderança no mercado financeiro não se resume apenas a inspirar e desenvolver pessoas, se comunicar bem e criar uma cultura forte com propósito; é também transformar visão em resultado concreto. Um bom líder pode ser admirado por suas qualidades humanas e capacidade de engajamento, mas sem performance, essa liderança pode perder legitimidade ao longo do tempo.
Tomar decisões na hora certa, manter consistência, lidar com a pressão de um ambiente repleto de competidores vorazes, prestar um serviço de excelência e gerar valor de longo prazo aos clientes, são marcas diárias na rotina dessa liderança. O que nem sempre fica tão evidente é onde exercitar e adquirir essas habilidades práticas. No meu caso, boa parte dessa construção aconteceu fora do escritório, a partir de uma relação construída ao longo dos anos com o esporte e a busca pelo alto desempenho.
O esporte passou a fazer parte dessa rotina de forma gradual, até se tornar um elemento estruturante. O que começou como uma atividade física evoluiu para algo mais disciplinado, com objetivos, planejamento, dedicação diária e propósito. Com o tempo, deixou de ser apenas um treino e passou a funcionar como um momento de organização de ideias, meditação e busca por equilíbrio, mas também passou a ser fonte diária de ensinamento sobre vencer e perder, superação de limites e conquistas de coisas que pareciam impossíveis.
Dentre diversos triathlons e Ironman realizados, ultramaratonas e ultra gran fondos de ciclismo, uma das experiências mais marcantes foi uma prova de 24 horas pedalando sem parar no deserto da Califórnia. Condições extremas, variações bruscas de temperatura (negativa durante a noite e quase 40 graus pela manhã), cansaço acumulado, momentos em que a decisão de parar parece mais racional do que continuar. Situações como essa deixam claro que o preparo físico é importante, mas é o aspecto mental que sustenta a continuidade. Essa lógica se repete em contextos profissionais diários, nessa hora, nossa resiliência é testada ao limite e a clareza mental passa a ser elemento determinante para superação e conclusão dos desafios.
O esporte também altera a forma como o processo é percebido. No ciclismo, ao qual me dedico diariamente, aprende-se logo que não há desempenho sem repetição, pois é uma construção contínua, muitas vezes sem retorno imediato. Esse entendimento ajuda a lidar melhor com o tempo das decisões profissionais e com a natureza não linear dos resultados. Sustentar e confiar no processo, mesmo sem recompensas no curto prazo, passa a ser parte central da execução.
Com o tempo, há também um ganho importante de autoconhecimento. Reconhecer limites, identificar momentos de “atacar” ou de diminuir a intensidade contribui diretamente para a forma como a liderança é exercida. Nem todos operam no mesmo ritmo, e ter essa leitura mais apurada tende a melhorar a condução do time.
Mesmo em uma prática predominantemente individual, o ciclismo reforça a importância do coletivo. Há apoio de vários profissionais “fora das pistas”, há gregários dispostos a se sacrificar pelo bem do time e para outro colega vencer, há vácuo e muita estratégia ao longo de qualquer competição. Essa lógica se transfere para a liderança, à medida que resultados consistentes não são construídos pelos líderes e sim pelos liderados, que dependem de alinhamento, confiança mútua e colaboração. O desempenho individual é relevante, mas é o funcionamento do conjunto que sustentará a evolução.
Destaco também o impacto direto na energia e no foco. Não se trata de uma pausa no trabalho, mas de um elemento que influencia diretamente a forma como ele é conduzido. Há quem diga que hard skills te ajudam a entrar no jogo e soft skills determinam até onde você vai nele. Em um ambiente profissional com pessoas altamente preparadas (hard skills), o esporte contribui para o desenvolvimento de competências complementares (soft skills), enquanto a liderança ajuda com o “norte” e o propósito. A combinação desses fatores tende a fortalecer a capacidade de execução e a consistência dos resultados no dia a dia.
Na minha janela do escritório, tem uma frase que resume o texto como um todo: produtividade não é sobre excesso, é sobre essência.
*Rodolfo Pousa é CEO do Andbank Brasil








