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15/03/2021 - 15h29 Artigos

“O que a vida quer da gente é coragem”

Em sua coluna mensal, Marcelo Madarász faz reflexões sobre vida e finitude após vivenciar uma situação limite


 

 

Por Marcelo Madarász*

 

A exemplo da frase que dá título a este artigo, trecho do romance Grande Sertão Veredas, do mestre Guimarães Rosa, há muitas obras, livros, filmes que relatam grandes momentos de transformação pelos quais as pessoas passam e, em sua maioria, as grandes viradas não marcam um horário, mas aparecem de repente e viram nossas vidas de ponta-cabeça. O poeta espanhol e místico cristão São João da Cruz escreveu, no século 16 , um poema chamado Noite Escura da Alma, no qual há desesperança, angústia, escuridão que fazem parte de momentos difíceis nos quais somos colocados frente a frente com a nossa própria escuridão, mas, que, encarada e superada essa fase, pode nos trazer luz e aspectos muito positivos.

 

Uma das riquezas às quais temos acesso são os depoimentos de pessoas que atravessaram momentos desafiadores – como o de enfrentar uma doença grave ou doença incurável – e como lidaram com isso. São depoimentos que nos tocam, emocionam, sensibilizam , ensinam e podem promover grandes aprendizados e transformações – o presente de poder rever valores, prioridades, estilo de vida, sem necessariamente estar passando pela situação em si.

 

No maravilhoso livro Claro Como o Dia – Como a certeza da morte mudou a minha vida, Eugene O’ Kelly se viu frente a frente com uma pergunta perturbadora: o que você faria se soubesse que seu tempo está acabando? Diante da morte anunciada, não se desesperou e considerou-se abençoado por poder planejar em detalhes seus últimos meses.

 

Completamos um ano de pandemia e tenho clareza da necessidade de salvaguardarmos a lucidez própria e de todos ao nosso redor. Para isso, manter equilíbrio, saúde em todas as dimensões, leveza, otimismo, fé e esperança é absolutamente fundamental e, justamente por isso, não quero trazer uma mensagem que possa parecer estar na contramão disso no qual acredito. Falar de situações limite e de nossa finitude pode ser uma maneira muito poderosa de nos lembrarmos da vida e do que estamos fazendo com ela.

 

Como boa parte dos executivos dos nossos tempos, faço anualmente o meu check-up. Tive uma alteração no exame ergométrico, o que fez com que a médica sugerisse procurar um cardiologista. Por sorte, tenho um há muitos anos, que é clínico geral; ele me pediu uma série de exames complementares. Diante dos resultados, haveria a necessidade de fazer um cateterismo. Fui para o hospital para realizar esse exame e só saí 26 dias depois, após uma cirurgia cardíaca que durou mais de sete horas, para tentar solucionar obstruções importantes, sendo que a maior delas era de 95%.

 

Gratidão enorme à vida, a ter descoberto a tempo ( zero sintomas), à maravilhosa equipe de médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, auxiliares, técnicos, nutricionistas, etc. A agenda intensa, todas as reuniões via zoom e os inúmeros compromissos tiveram que aguardar.

 

Foram muitas as reflexões que agora estou me empenhando para transformar em aprendizado e transformação, mas, pegando emprestado da Bronnie Ware, enfermeira australiana que escreveu antes de partir, “uma vida transformada pelo convívio com pessoas diante da morte”, queria relacionar os grandes arrependimentos que as pessoas tem em suas fases finais:

 

  • Eu gostaria de ter priorizado as minhas escolhas.
  • Eu gostaria de ter expressado meus sentimentos.
  • Eu trabalhei muito.
  • Eu deveria ter passado mais tempo com meus amigos.
  • Eu deveria ter feito de mim mesmo uma pessoa mais feliz.

 

Como mencionei, o meu objetivo ao compartilhar estas linhas com algumas das muitas perguntas que me fiz, foi o de propor uma reflexão que vá ao encontro do último ponto trazido pela Bronnie, lindamente citada pela doutora Ana Cláudia Quintana Arantes, em seu livro A Morte É Um Dia Que Vale A Pena Viver : não espere algo grave lhe acontecer para que você se permita simplesmente parar e refletir sobre o que está fazendo com a sua vida. Sem drama, apenas com muita honestidade: você está fazendo de você uma pessoa mais feliz? Ainda dá tempo, mas aja o quanto antes! Aja antes que seja tarde!

 

*Marcelo Madarasz é diretor de RH para a América Latina da Parker Hannifin
 
 
 
Foto de abertura: Marcos Suguio
 
 

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