NR-1 entra em contagem regressiva para aplicação de sanções
Atualização da norma transforma saúde mental em ponto central da segurança do trabalho
As empresas brasileiras entraram em contagem regressiva para se adequar à atualização da NR-1, do Ministério do Trabalho e Emprego. Após um ano de vigência com caráter educativo, a norma passa a ser fiscalizada de forma punitiva a partir de maio.
A mudança redefine o conceito de saúde e segurança do trabalho ao ampliar seu escopo e equiparar riscos psicossociais, como estresse crônico, assédio moral, sobrecarga e clima organizacional, aos riscos físicos e operacionais. Com a intensificação das fiscalizações ao longo de 2026, a expectativa de especialistas é que a NR-1 deixe de ser vista apenas como obrigação legal e passe a integrar, de forma definitiva, a agenda estratégica das empresas brasileiras.
A exigência chega em um momento de pressão crescente sobre os indicadores de saúde mental no país. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho. Em 2024, foram registrados mais de 470 mil afastamentos por ansiedade, depressão e burnout, o maior número da última década. No plano econômico, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) estima que problemas relacionados à saúde mental geram perdas superiores a R$400 bilhões por ano em produtividade no Brasil.
Para Rodrigo Araújo, engenheiro ambiental e CEO da Global Work, a atualização da NR-1 marca uma mudança estrutural na forma como as empresas devem enxergar a prevenção: “A norma deixa claro que o adoecimento emocional não é um problema individual, mas um risco organizacional. Assim como se mapeia ruído, calor ou agentes químicos, agora é obrigatório mapear fatores que impactam a saúde mental”.
Impactos na rotina
Na prática, a NR-1 passa a exigir que as organizações incluam os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso envolve diagnóstico do ambiente de trabalho, análise de jornadas, práticas de liderança, metas, canais de denúncia e histórico de afastamentos. Empresas que ignorarem a exigência podem ser autuadas em fiscalizações trabalhistas, com multas que variam conforme o porte da companhia, a gravidade da infração e a reincidência.
Rodrigo salienta que o risco de penalização é apenas uma parte do problema, porque, quando a empresa não se antecipa, paga a conta duas vezes: na multa e no aumento do absenteísmo, da rotatividade e da queda de produtividade. “O custo invisível costuma ser maior do que qualquer sanção administrativa”, assinala o executivo.
Vantagens para quem se antecipa
Apesar do caráter obrigatório, especialistas apontam que a adequação à NR-1 pode gerar ganhos concretos. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, para cada dólar investido em programas estruturados de saúde mental no trabalho, o retorno médio é de quatro dólares em aumento de produtividade e redução de custos assistenciais.
Empresas que tratam a norma de forma estratégica tendem a sair na frente, pois, quando o mapeamento é bem feito, é possível corrigir gargalos de gestão, melhorar o clima interno e reduzir afastamentos. “A saúde mental passa a ser também um indicador de eficiência operacional”, diz Rodrigo.
Como evitar multas
A adaptação à NR-1 exige mais do que ações pontuais. Especialistas recomendam um processo estruturado, que inclui diagnóstico técnico, envolvimento da liderança e acompanhamento contínuo. Entre as principais medidas estão:
► Realizar avaliação formal dos riscos psicossociais, com apoio técnico especializado,
► Integrar saúde mental ao PGR e aos demais programas de SST,
► Capacitar lideranças para identificar sinais de sobrecarga e assédio,
► Criar canais seguros de escuta e reporte e
► Monitorar indicadores como absenteísmo, afastamentos e rotatividade.
Rodrigo salienta que a norma não pede soluções improvisadas. Ela exige método, registro e acompanhamento. Empresas que tratam o tema apenas como campanha interna correm mais risco de autuação.
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