IA avança nos conselhos de administração, mas governança ainda é pouco formalizada
Pesquisa mostra que só 31% dos conselheiros têm treinamentos específicos para uso da tecnologia
A inteligência artificial já contribui para melhorar as decisões estratégicas dos conselhos empresariais. Entre os colegiados que utilizam a tecnologia, 70,6% registraram alguma melhora na qualidade dessas decisões. A análise de dados é a principal aplicação da IA (72,4%), seguida pela otimização e automação de processos (41,4%). Seu uso também se estende a atividades relacionadas à estratégia e à gestão de riscos (31% cada), além de investimentos (20,7%) e conformidade (19%).
Os números são da pesquisa Inteligência Artificial, Governança e Ética nos Conselhos de Administração das Empresas Brasileiras, realizada pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) em parceria com o FGVethics (Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance). Entre os participantes da etapa quantitativa, 55 confirmaram o uso de IA em conselhos, ante 86 que disseram não usá-la nos colegiados em que atuam.
Segundo Danilo Gregório, gerente sênior de conhecimento e relações institucionais do IBGC, a falta de mecanismos formais de orientação e supervisão nas empresas pode estar inibindo a adoção da tecnologia, mas não o suficiente para afastar o uso informal por quem a vê como uma oportunidade de ganho de produtividade. “É possível que os controles aumentem se houver mudanças na regulação ou materialização de riscos relevantes por uso irresponsável", afirma
Entre as áreas do processo decisório em que inteligência artificial foi ou está sendo aplicada, o planejamento estratégico lidera (51,7%), seguido de operações (41,4%), riscos e compliance (36,2%), finanças (34,5%), e marketing (31%).
Em relação ao nível de preparo do conselho para lidar com os desafios e oportunidades da IA, as avaliações estão concentradas nas categorias neutro (37,9%) e despreparado (34,6%); 24,1% consideram o conselho preparado.
Assim como ocorre dentro das empresas, a adoção da IA nos conselhos avança mais rapidamente que sua institucionalização: embora 93% dos conselheiros considerem necessário ou totalmente necessário o letramento digital, apenas 31% relataram treinamentos específicos. Ainda, somente um quinto (20,7%) dos casos contam com diretrizes formalmente documentadas; estruturas formais de supervisão estão presentes em 27,6%.
Dentre os 86 casos em que a IA não é usada pelos conselheiros, o principal motivo da não adoção é a falta de diretrizes claras (40,7%). Em seguida, estão a falta de conhecimento técnico (36%), tecnologia ainda não ser considerada prioridade estratégica (30,2%) e incertezas ou riscos associados à IA (27,9%). Apesar disso, 74,4% consideram provável ou muito provável sua adoção nos próximos anos, indicando que a expansão tende a continuar.
Para Ligia Maura Costa, managing director do FGVethics, as entrevistas qualitativas revelam um ponto de atenção: o uso individual da inteligência artificial pelos conselheiros pode avançar mais rapidamente do que a definição de regras pelas organizações. “Esse descompasso traz riscos à confidencialidade das informações e dificulta a supervisão do uso da tecnologia. A integridade da governança exige critérios claros para proteger dados, validar análises e preservar a independência de julgamento. A IA pode ampliar a capacidade analítica do conselho, mas a responsabilidade pelas decisões permanece com os conselheiros", afirma.
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