Skill-based Management, mais estratégia na gestão de talentos
Denise Rendtorff: prática favorece mobilidade interna, melhor aproveitamento de talentos e maior engajamento
Oportunidade de crescimento é o fator que mais impacta o engajamento de um profissional, de acordo com dados da 2ª edição do estudo Engaja S/A, desenvolvido na parceria entre o Talenses Group, a Flash e a FGV-Eaesp. A questão é que, ainda que a pessoa esteja preparada para ser promovida, pode ser que a próxima cadeira ainda não esteja vaga. Por isso, é importante que a companhia amplie seu conceito no quesito crescimento e desenvolvimento dos membros da equipe. É possível, por exemplo, permitir que, durante a permanência na empresa, os profissionais sejam estimulados a ingressar em uma trajetória de evolução e reconhecimento por meio da skill-based management ou gestão por habilidades.
Na prática, o RH mapeia as habilidades cognitivas e comportamentais dos colaboradores, construindo um mapa de skills da empresa. Com base nessas informações, quando surge um projeto, identifica-se quais competências são necessárias para a iniciativa e aloca-se as pessoas. Faz isso sem considerar cargo ou área de atuação. Em alguns casos, pode complementar o time com especialistas externos por um tempo determinado.
É uma mudança estratégica na gestão de pessoas e uma oportunidade valiosa de observar um colaborador pelo que ele “sabe fazer”, por sua “capacidade de gerar valor”. Por diversas razões, os cargos continuam sendo importantes, mas com a skills-based management amplia-se a possibilidade de integrar o conhecimento, a capacidade e a competência de pessoas que, no modelo tradicional, estariam separadas pelas linhas imaginárias que delimitam os departamentos.
Um exemplo para contextualizar melhor. Suponha que uma pessoa que trabalha no RH tenha uma boa capacidade em planejamento estratégico. Em vez de aplicar essa habilidade apenas no departamento de atuação, ela coloca essa aptidão à disposição da organização como um todo. Dessa forma, pode ser envolvida em diferentes projetos e, assim, se mover de maneira estratégica dentro da companhia.
O tema não é novo, contudo, poucas empresas já o colocam em prática. Não necessariamente por falta de interesse em evoluir, mas porque não é um processo simples. Envolve mudança de estrutura, mentalidade, processos, filosofia corporativa, gestão de talentos. É uma quebra de paradigma enorme. A liderança precisa estar preparada. Pode gerar resistência daqueles que se sentem mais seguros ou confortáveis dentro da caixa, de uma rotina. No entanto, os benefícios compensam.
Com diferentes membros contribuindo com o seu melhor para um determinado projeto, a performance do todo tem mais chance de se elevar. A empresa ganha fluidez, agilidade e flexibilidade nos trabalhos. O colaborador, por sua vez, tem mais mobilidade interna e chance de colocar em prática seus talentos e suas paixões. Tem a possibilidade de trabalhar mais feliz. E isso cria um ciclo virtuoso que leva à melhora do ambiente, das relações e dos resultados.
Empresas de tecnologia e startups tendem a ter mais facilidade para aderir à skill-based management, porque costumam ter uma cultura orientada por dinamismo, flexibilidade e inovação. Entretanto, a gestão por habilidades é possível em qualquer companhia com olhar mais regenerativo sobre o mundo e as pessoas, preocupadas com o impacto que geram e com encontrar um formato de trabalho que seja mais sustentável. Lembrando que a jornada não precisa ser iniciada com uma revolução. É possível começar por áreas. Testar, ajustar, aprovar e escalar.
Em um momento em que a Inteligência Artificial tem absorvido muito do trabalho operacional e burocrático, cada colaborador está sendo convidado a potencializar o que tem de melhor. Se a organização se posicionar como uma impulsionadora desse desenvolvimento, o mercado de trabalho como um todo terá muito a ganhar.
E não podemos esquecer que estamos na Era das equipes híbridas, integradas não apenas por humanos, mas também por agentes de IA. São ferramentas que também contribuem com suas competências e que devem ser consideradas no mapa de skills da empresa. O que significa mais um marco na evolução estratégica de orquestração da gestão de talentos por habilidades.
Não acredito que a skill-based management é um recurso que vai garantir que as pessoas nunca deixem a companhia. Mas ela tem potencial para reduzir o volume de saídas voluntárias motivadas pela falta de oportunidades internas de desenvolvimento.
* Denise Rendtorff é sócia e diretora-geral da Talenses Human Capital, consultoria do Talenses Group
Foto: Divulgação/Talenses/editada com IA








