Imagem da matéria Como redesenhar a nova dinâmica com a IA sem destruir a cultura organizacional
24/07/2026 - 11h00 Radar

Como redesenhar a nova dinâmica com a IA sem destruir a cultura organizacional

Os entraves à transformação estão na cultura, nas habilidades e na liderança, diz especialista da Exec


A inteligência artificial já foi tratada pelas empresas como uma ferramenta de produtividade ou uma pauta restrita aos departamentos de TI; agora, ocupa espaço nas discussões nos Conselhos de Administração, principalmente quando o assunto é governança. À medida que a automação avança sobre processos cognitivos complexos, surge um desafio para as empresas: escalar a eficiência tecnológica sem erodir os pilares que sustentam a performance de longo prazo: cultura, confiança e propósito.

 

Embora o mercado esteja voltado intensivamente para a aquisição da ferramenta, na visão de André Freire, sócio-diretor da Exec, os entraves à transformação não estão ligados ao acompanhamento da evolução da IA, mas na cultura, nas habilidades e na liderança. "O maior erro não é a velocidade ou a tecnologia escolhida, mas a negligência com a cultura e as pessoas no processo", explica.

 

A diferença entre o discurso de transformação da IA e sua prática real nas organizações aparece no orçamento, na governança e na métrica. André afirma que quando a empresa mensura resultado por retorno sobre investimento e redesenho de processo, está de fato transformando o negócio, mas, quando mede pelo número de ferramentas compradas ou de licenças ativas, está apenas automatizando tarefas. “O discurso de transformação também costuma priorizar o especialista técnico, quando o gargalo real está nos perfis capazes de conduzir a mudança cultural".
 

Quando a IA corrói a confiança dos colaboradores

A implementação da IA atinge um ponto crítico quando começa a interferir em decisões sensíveis que afetam a vida dos colaboradores, como avaliações de desempenho e processos de desligamento, sem que haja uma explicação humana clara. "A partir daí, a confiança cai rápido", alerta André.

 

Os sinais de desgaste cultural envolvem queda acentuada em pesquisas de clima, aumento do turnover em áreas-chave, silêncio sintomático em reuniões e uso de ferramentas não autorizadas por medo ou falta de orientação. "Quando o ganho de produtividade é isolado e não sustentável, é um indício claro de que a cultura está sendo sacrificada em prol da eficiência imediata", ressalta.

 

Em um ambiente altamente automatizado, a preservação de valores que orientam a decisão e o senso de propósito torna-se uma condição vital. O diretor da Exec defende a proteção deliberada de espaços de debate, discordância e criatividade. A IA em escala, diz ele, tende a padronizar processos, o que é bom para a eficiência operacional, mas pode reduzir a força da diversidade de pensamento.  “O julgamento humano deve permanecer como a última instância em contextos de ambiguidade ética ou estratégica. Também é essencial preservar a meritocracia e a clareza sobre quem decide o quê, porque a IA redistribui acesso à informação e, sem regras claras, pode gerar disputa de poder dentro da organização".

 

Governança e liderança

A recomendação da Exec é que a IA na governança seja algo estruturado, com a participação de várias partes da organização. É preciso uma governança central, com um comitê que integre tecnologia, negócio e pessoas, e que tenha mandato para definir prioridades, critérios éticos e métricas comuns entre as áreas. Um modelo eficaz também significa medir resultado de forma consistente, e hoje poucas empresas usam retorno sobre investimento como critério principal para avaliar suas iniciativas de IA.

 

A agenda da IA deixa de estar sob o guarda-chuva da área de TI a partir do momento em que passa a influenciar decisões de negócio, processo comercial e proposta de valor. Se fica isolada em uma única área, os projetos tendem a travar na prova de conceito e não chegam a escalar. André ressalta que essa agenda precisa estar sob responsabilidade da alta liderança, apoiada por uma estrutura de governança que reúna várias áreas estratégicas que atuem em conjunto. Na visão dele, o papel definitivo do líder agora é a arbitragem, ou seja, não se trata de escolher entre acelerar a tecnologia ou proteger a cultura, mas de equilibrar ambos.

 

Esse novo momento também influencia as características dos executivos que estão no centro das decisões de IA nas organizações. Adaptabilidade e capacidade de gestão de mudança aparecem como as competências mais críticas apontadas por empresas brasileiras, à frente até de habilidades puramente técnicas.

 

"Pensamento crítico para validar o que a IA entrega, comunicação para sustentar a narrativa da mudança junto às equipes, e inteligência emocional para conduzir times que estão, ao mesmo tempo, entusiasmados e inseguros. No fundo, o valor do líder migra de ter respostas para saber fazer as perguntas certas à tecnologia e às pessoas", complementa. André. 

 

Olho nas métricas e no futuro

Para garantir que a IA não impacte negativamente a cultura organizacional, é preciso avaliar métricas do lado do negócio, como ROI, velocidade de processos e qualidade da decisão, algo que, segundo André, é pouco usado, apesar de ser mais relevante do que o simples volume de ferramentas adotadas.

 

Do lado das pessoas, pesquisa de clima e engajamento, turnover por área, uso não autorizado da ferramenta como termômetro de confiança, e participação em treinamentos por nível hierárquico, para monitorar equidade de acesso à capacitação. Acompanhar os dois lados juntos é o que evita o erro mais comum: medir sucesso da IA apenas pela eficiência, sem enxergar o custo cultural que essa eficiência pode estar gerando.

 

Por fim, André salienta: quem continuar vendo a IA somente como automação vai perder competitividade não pela tecnologia em si, mas pela liderança que não evoluiu junto com ela. "A era humano-máquina não é sobre máquinas substituindo humanos, mas sobre humanos guiando máquinas, liderados por pessoas que compreendem que a cultura é o único diferencial competitivo que a tecnologia não pode replicar".

 

 

Foto: Shutterstock

Últimas notícias

Imagem da matéria Como redesenhar a nova dinâmica com a IA sem destruir a cultura organizacional
Como redesenhar a nova dinâmica com a IA sem destruir a cultura organizacional
Radar - 24/07/2026 - 11h00
Os entraves à transformação estão na cultura, nas habilidades e na liderança, diz especialista da Exec
Ver MAIS
Imagem da matéria ISA Energia Brasil lança programa de mentoria e desenvolvimento para mulheres
ISA Energia Brasil lança programa de mentoria e desenvolvimento para mulheres
Diversidade & Inclusão - 23/07/2026 - 14h03
Iniciativa está alinhada à meta de elevar e fortalecer a presença feminina na organização
Ver MAIS
Imagem da matéria VR anuncia Denise Paludetto como nova diretora de Pessoas
VR anuncia Denise Paludetto como nova diretora de Pessoas
Gente - 22/07/2026 - 16h45
Entre as responsabilidades na nova casa, a executiva vai responder pelas frente de DHO e cultura
Ver MAIS
Imagem da matéria Depois da IA generativa, empresas enfrentarão uma nova etapa de ruptura, mas não estão preparadas
Depois da IA generativa, empresas enfrentarão uma nova etapa de ruptura, mas não estão preparadas
Radar - 22/07/2026 - 14h56
A inteligência artificial geral terá ainda mais impactos no mundo do trabalho, avisam especialistas
Ver MAIS

Notícias mais lidas

Imagem da matéria Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Recrutamento & Seleção - 26/02/2026 - 10h59
Chamada de A.R.A - Agente Robótica Aramis, solução fortalece a estratégia fashion tech da companhia
Ver MAIS
Imagem da matéria O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
Artigos - 27/04/2026 - 12h27
CEO do Andbank conta como a rotina de ciclismo, triathlons e maratonas contribui no seu desempenho como líder
Ver MAIS
Imagem da matéria O papel estratégico do RH na retenção de talentos em tempos digitais
O papel estratégico do RH na retenção de talentos em tempos digitais
Artigos - 07/08/2025 - 17h10
Com intencionalidade e consistência, o básico bem feito tem gerado os melhores resultados, diz especialista
Ver MAIS
Imagem da matéria Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Diversidade & Inclusão - 07/05/2026 - 10h43
Mas, ao se tornarem mães, mulheres ainda enfrentam dificuldades para manter o emprego, diz especialista
Ver MAIS
 Teste GRÁTIS por 7 dias