Depois da IA generativa, empresas enfrentarão uma nova etapa de ruptura, mas não estão preparadas
A inteligência artificial geral terá ainda mais impactos no mundo do trabalho, avisam especialistas
Eespecialistas em RH alertam: as empresas brasileiras ainda não estão preparadas para a chegada da inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês), cenário em que sistemas passam a executar atividades intelectuais humanas amplamente, aprendendo, interpretando contextos e tomando decisões em múltiplos ambientes. Embora o avanço recente da IA generativa tenha acelerado a discussão sobre produtividade e automação, a avalição é que o mundo corporativo ainda opera em um estágio inicial de adaptação.
O debate se conecta ao conceito de singularidade tecnológica, popularizado pelo futurista norte-americano Raymond Kurzweil, que descreve o momento em que a evolução da inteligência artificial e da computação se tornará tão acelerada que provocará uma transformação irreversível na economia, na sociedade e no trabalho. Na visão dele, máquinas deixarão de atuar apenas como ferramentas para se tornarem extensões da inteligência humana, o que ampliará capacidades cognitivas como memória, raciocínio e criatividade.
Apesar desse avanço, empresas ainda enfrentam dificuldades para estruturar uma transformação profunda baseada em IA. Para Paulo Saliby, sócio e fundador da SG Comp Partners, consultoria em remuneração estratégica, mesmo entre grandes organizações, o debate ainda está concentrado na aplicação operacional da inteligência artificial atual, não em um redesenho estrutural do trabalho intelectual.
Ele conta que a maior parte das organizações com as quais a SG conversa ainda está tentando entender como usar a IA para ganhar produtividade, automatizar tarefas e apoiar decisões. “Poucas avançaram para uma discussão mais profunda sobre reorganização do trabalho, revisão de estruturas, governança, competências e liderança”, afirma.
Alexandre Benedetti, diretor geral da Landtech, empresa de recrutamento de profissionais de TI e Digital do Talenses Group, também pondera que, embora a transformação tenha começado, ainda ocorre de forma incremental e desigual. O que se vê é a IA assumindo atividades como elaboração de relatórios, pesquisas de mercado, triagem de documentos, dados financeiros e apresentações, e nada disso substitui empregos, mas sim atividades.
“É importante salientar que esse cenário impactará cada vez mais profissionais que são apenas executores e têm menos capacidade de formular perguntas, analisar contextos, agregar repertórios, considerar possíveis riscos, ou tomar decisões ambíguas.” Ele entende que, nesse contexto, a AGI trará ainda mais transformações para o mercado de trabalho. Alguns cargos deixarão de existir, outros ganharão relevância e outros serão criados. Algumas competências tendem a ganhar maior relevância, como a própria alfabetização em IA, ou seja, saber usá-la de forma produtiva, ética, segura, embasada em compliance.
A mudança também deve alterar a lógica de remuneração e retenção nas empresas. Segundo Paulo Saliby, quanto mais a IA absorver atividades repetitivas, analíticas e transacionais, mais valor tende a ser concentrado em profissionais capazes de interpretar cenários complexos, exercer julgamento crítico e alinhar interesses humanos. “É como em um avião altamente automatizado. A tecnologia faz muito, mas, nos momentos decisivos, você ainda precisa de pilotos extremamente experientes”, compara. Nas empresas, esses pilotos serão líderes e especialistas capazes de combinar visão de negócio, criatividade e responsabilidade decisória. Na prática, isso deve pressionar as empresas a desenharem pacotes de remuneração mais estratégicos para esses profissionais.
Portanto, prossegue ele, a tendência pode ser uma bifurcação maior dos modelos de remuneração. “Para atividades mais padronizáveis, a pressão será por eficiência e produtividade. Para posições altamente estratégicas, a disputa por talento pode se intensificar, exigindo pacotes mais sofisticados, com maior componente variável e retenção de longo prazo”, prevê.
Alexandre frisa que a aceleração da IA ainda esbarra, também, em questões estruturais importantes, especialmente em mercados como o brasileiro, como maturidade tecnológica, acesso à infraestrutura, energia, recursos naturais e velocidade de aprendizado organizacional. “As empresas vão precisar combinar capital humano, inteligência artificial e velocidade de aprendizado. E isso não é simples. Entendo que a IA geral seja o futuro, mas no Brasil eu não vejo essa implementação acontecer no mercado de trabalho nessa próxima década. Estamos em conversas muito preliminares nesse sentido”, finaliza.
O futuro humano nas empresas
Essa discussão também aparece no recém-lançado livro Trabalho de Ser Humano. Segundo o autor, Piero Franceschi, CEO da StartSe, a produtividade tende a se tornar território das máquinas e o diferencial humano estará em capacidades como criatividade, questionamento, construção de significado e tomada de decisão em cenários de incerteza. O livro desloca a discussão do “futuro do trabalho” para o “futuro do humano no trabalho”.
Mais do que dominar novas ferramentas, a transformação atual exige adaptação emocional, pensamento crítico, criatividade e capacidade de aprendizado contínuo. À medida que máquinas assumem tarefas repetitivas, o diferencial humano passa a estar na habilidade de criar, interpretar, dialogar e resolver problemas. Nesse contexto, profissionais que utilizam a tecnologia para ampliar suas capacidades tendem a se destacar, já os que apenas se acomodam à automação correm o risco de perder autonomia, repertório e até autoconfiança. Para Piero Franceschi, o futuro do trabalho pertence a quem consegue evoluir junto com a tecnologia sem renunciar à própria humanidade: “O humano é o único que cria sentido além da função”, pontua.
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