Estratégia começa onde muitos ainda chamam de suporte
Na Log-In, Andrea Simões defende que a área de Gente não seja tratada como periférica e participe das decisões
Durante muitos anos, a área de Recursos Humanos foi posicionada como suporte ao negócio. Um suporte necessário, relevante, mas ainda assim acessório às decisões que definem o rumo da organização. Sempre me pareceu curioso que, ao mesmo tempo em que afirmamos que pessoas estão no centro da estratégia, a área responsável por estruturá-las não seja vista como parte da própria arquitetura do futuro da empresa.
Se gente é o centro, a área de Gente não pode ser periférica.
A diferença entre apoiar e sustentar é profunda. Apoiar é reagir à estratégia já definida. Sustentar é participar da sua construção, antecipar riscos, preparar capacidades e garantir que a organização tenha maturidade humana para executar aquilo que decidiu fazer.
Tenho defendido que uma Diretoria de Gente precisa ter um plano formalmente alinhado à estratégia do negócio, validado pela diretoria executiva e pelo conselho. Não se trata de um conjunto de iniciativas isoladas, mas de um direcionamento estruturado que dialogue com crescimento, eficiência, inovação e sustentabilidade. Esse plano precisa contemplar horizontes de curto, médio e longo prazo, com acompanhamento disciplinado e revisões consistentes.
O Gartner tem sido claro ao apontar que o RH do futuro é aquele que influencia decisões estratégicas e atua com base em dados para antecipar riscos organizacionais. O próprio instituto demonstra que empresas que integram cultura ao fluxo real de trabalho registram aumento de até 34% no desempenho dos colaboradores. Cultura, portanto, deixa de ser narrativa inspiradora e passa a ser arquitetura de performance.
Da mesma forma, estudos da Deloitte indicam que 87% das organizações pretendem ampliar investimentos em tecnologia de RH. Mas tecnologia, por si só, não transforma nada. O diferencial está na capacidade da área de traduzir dados em decisões. Quando analytics é utilizado de forma estruturada, é possível correlacionar práticas de gestão com produtividade, engajamento e retenção e isso altera a qualidade da conversa estratégica.
Esse movimento exige método. Não é mais possível atuar apenas no “ver e agir”, reagindo a demandas emergenciais. A complexidade do ambiente corporativo exige planejamento consistente, definição clara de prioridades e indicadores que evidenciem impacto real no negócio.
Outro ponto central é a transição do modelo baseado exclusivamente em cargos para um modelo orientado por competências. O LinkedIn Workforce Report mostra que 68% dos líderes de RH já consideram adaptabilidade e fluência digital mais determinantes do que formações tradicionais. Além disso, análises do Gartner indicam que organizações estruturadas por habilidades alcançam ganhos de agilidade entre 25% e 30%, ao permitir realocação estratégica de talentos conforme as necessidades evoluem.
Isso significa que a área de Gente precisa antecipar lacunas de competências antes que elas se tornem gargalos estratégicos.
Quando há coerência entre estratégia, reconhecimento, desenvolvimento e modelo de liderança, o engajamento deixa de ser esforço pontual e assume a posição de consequência estrutural. Estudos evidenciam que empresas que tratam saúde mental e segurança psicológica como prioridade estratégica reduzem turnover e elevam desempenho. O cuidado com o humano deixou de ser benefício e passou a ser mitigação de risco e alavanca de sustentabilidade.
Assumir esse lugar exige desenvolvimento contínuo do profissional de RH. É necessário compreender profundamente o modelo de negócio, falar a linguagem financeira, dialogar com CEOs e conselhos com segurança técnica. Exige buscar benchmarks, estudar tendências e entender como cultura, tecnologia e competências se articulam para sustentar vantagem competitiva.
Quando a área de Gente se posiciona dessa maneira, ela abandona o posto de suporte e começa a ser reconhecida como elemento estruturante do negócio. E algo relevante acontece: a autoestima dos próprios times de RH se fortalece. A área passa a compreender o impacto real da sua atuação.
Se afirmamos que pessoas estão no centro da estratégia, precisamos estar dispostos a estruturar a área de Gente como parte essencial das decisões que definem o futuro.
Não se trata de protagonismo institucional. Trata-se de coerência. Isso porque estratégia não se sustenta apenas com intenção, e sim sustenta-se com gente preparada para executá-la.
Andrea Simões é Diretora de Gente, Gestão e Tecnologia da Informação na Log-In Logística Intermodal.
Foto: Magnific








