Fim da escala 6x1 amplia debate sobre gestão de pessoas e adaptação das empresas
Proposta de redução da jornada sem corte salarial reforça papel estratégico do RH
A discussão sobre a flexibilização e o possível fim da escala 6x1 no Brasil tem mobilizado empresas, trabalhadores e representantes do setor produtivo. Mais do que uma transformação nas relações de trabalho, a proposta de redução da jornada semanal sem diminuição salarial traz impactos diretos para a estrutura operacional das companhias e amplia o papel estratégico das áreas de Recursos Humanos na adaptação ao novo cenário econômico.
Na prática, a mudança mantém os salários atuais, mas reduz a carga horária semanal. Heliana Silva, country manager da SGF Global no Brasil, empresa de soluções em recrutamento, terceirização e gestão de talentos, lembra que, de acordo com notas técnicas do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a redução de horas sem alteração salarial eleva o custo unitário do trabalho. Esse impacto financeiro e operacional é sentido de forma mais intensa em setores que concentram a maior parte da força de trabalho formal do país e que operam com regimes de turnos rígidos. Ela também cita dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) coletados entre 2025 e o início de 2026 pelo IBGE: os segmentos de comércio, reparação de veículos e serviços de alojamento e alimentação respondem por mais de 25% dos empregos formais no Brasil, sendo as áreas com maior complexidade para a reorganização de escalas.
O momento exige planejamento estratégico e capacidade de adaptação das empresas. Além da revisão de escalas e turnos, as organizações precisarão investir em produtividade, automação de processos e modelos de gestão mais eficientes para absorver os reflexes operacionais.
Para Heliana, o debate exige uma atuação mais analítica das lideranças de RH. “O possível fim da escala 6x1 representa uma transformação importante nas relações de trabalho e exige das empresas uma visão estratégica sobre gestão de pessoas, produtividade e sustentabilidade operacional. O RH passa a ter um papel ainda mais relevante na construção de modelos que conciliem bem-estar dos colaboradores, eficiência e segurança jurídica”, afirma.
A executiva destaca que empresas que se anteciparem às mudanças terão mais condições de atravessar o período de transição com estabilidade. “Não se trata apenas de adequação trabalhista. As organizações precisam revisar estruturas, avaliar impactos financeiros, redimensionar equipes e investir em planejamento. Quem começar esse movimento agora terá mais segurança para proteger margens e manter competitividade”, completa
Entidades empresariais e representantes do setor produtivo defendem cautela, alertando que o aumento nos custos de contratação e a necessidade de novas contratações para cobrir os dias de descanso podem pressionar especialmente as micro e pequenas empresas, que possuem menor margem para absorver flutuações de custos operacionais.
Por outro lado, análises técnicas a respeito do mercado produtivo indicam caminhos para mitigar esses impactos por meio do ganho de eficiência. Estudos setoriais publicados entre 2025 e 2026 pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apontam que jornadas de trabalho exaustivas geram custos ocultos severos para as empresas, como taxas elevadas de absenteísmo, alta rotatividade e queda na qualidade da entrega, ou seja, a reorganização dos processos internos e a otimização do tempo produtivo são capazes de compensar a redução de horas, mantendo a competitividade das empresas de médio e grande porte.
Relatórios globais da OIT (Organização Internacional do Trabalho) divulgados no ano passado, também revelam que a tendência de redução das jornadas de trabalho está diretamente vinculada à aceleração digital e à automação industrial. Os dados institucionais demonstram que países e blocos econômicos que implementaram regimes de maior flexibilidade e descanso registraram, historicamente, saltos de inovação tecnológica interna e maior retenção de profissionais altamente qualificados, redefinindo o padrão de sustentabilidade das operações de mercado. Ao conduzir o processo de transição, a área de gestão de pessoas torna-se peça-chave na redefinição da dinâmica e da competitividade no mercado de trabalho brasileiro.
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