Licença-maternidade de seis meses continua como exceção nas empresas brasileiras
Ainda falta a visão de que desenvolvimento humano e desenvolvimento organizacional caminham juntos
O Dia Internacional da Mulher passou, mas, além das celebrações, a equidade de gênero deve permanecer na pauta da imprensa e, principalmente, das empresas. Temas como a extensão das licenças maternidade e paternidade são um exemplo disso: a maioria das organizações brasileiras ainda mantém a licença-maternidade restrita aos 120 dias previstos em lei. Segundo um levantamento da VR Benefícios, apenas 6% das concessões ultrapassam quatro meses, evidenciando que a extensão do benefício ainda é exceção no setor privado, apesar dos debates crescentes sobre equidade parental e retenção de talentos. Também de acordo com o levantamento, quando se tratada da licença-paternidade, 77% dos pais utilizam apenas os cinco dias de afastamento garantidos por lei. Licenças mais longas, acima de 20 dias, seguem como exceção: apenas 11% dos pedidos registrados entre as 33 mil empresas analisadas ultrapassaram esse período.
Entre as mães, o cenário também mostra estagnação. A licença-maternidade continua concentrada nos 120 dias previstos na legislação. A adesão ao Programa Empresa Cidadã, que permite a ampliação para 180 dias, tem diminuído. No primeiro semestre de 2025, apenas 6% das licenças ultrapassaram os quatro meses, ante 10% em 2024 e 12% em 2023.
A disparidade de gênero no cuidado familiar também aparece nos atestados médicos: 70% foram apresentados por mulheres e apenas 30% por homens, segundo o Painel de Impacto Social da VR.
Na visão de David Braga, presidente da ABRH-MG, a licença-maternidade não é apenas um benefício trabalhista, mas uma declaração concreta de como a empresa enxerga o papel da mulher na sociedade. “Em tempos em que falamos tanto de equidade e sustentabilidade, ampliar e respeitar esse direito significa proteger não só a mãe e o bebê, mas também a cultura organizacional, a retenção de talentos e o futuro do próprio negócio. Valorizar a maternidade é reconhecer que desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano caminham juntos”, diz o executivo.
Ele ainda enfatiza que a forma como uma empresa trata a licença-maternidade revela mais sobre sua cultura do que qualquer discurso de diversidade. Para Davi, em um momento em que o mercado exige ambientes mais humanos e sustentáveis, apoiar a maternidade não é apenas uma questão de direito, mas de visão estratégica porque organizações que acolhem o tempo da vida também fortalecem o compromisso, a lealdade e o engajamento de quem constrói seus resultados todos os dias.
A cultura organizacional e o impacto na carreira feminina
Os dados não surpreendem Bárbara Nogueira, diretora da Prime Talent Executive Search, que atua há dez anos como headhunter. Mãe de duas crianças, casada com um profissional que também trabalha em tempo integral, ela afirma: “Quando 77% dos pais utilizam apenas cinco dias de licença e 70% dos atestados para cuidar dos filhos seguem sendo apresentados por mulheres, não estamos falando apenas de decisões individuais, mas de cultura organizacional, de heranças históricas e de um mindset que ainda associa o cuidado quase exclusivamente ao feminino”.
Ela diz que há um caminho de amadurecimento estrutural a ser percorrido pelas empresas, porque mudar essa lógica exige tempo, exemplo da liderança e coerência entre discurso e prática, mas enquanto esse avanço está em curso, a falta de equidade parental impacta a trajetória profissional das mulheres, seja pela percepção de menor disponibilidade, pela desaceleração após a maternidade ou pelas oportunidades que deixam de ser consideradas
“Equidade parental não é um benefício, é uma estratégia de negócio”, assinala a executiva, que recomenda às empresas incentivar a participação ativa dos pais, ampliar licenças, legitimar lideranças masculinas que priorizam a família e criar ambientes onde a parentalidade não seja penalizada são decisões estratégicas, não ideológicas.
O olhar de quem acabou de vivenciar a experiência
Embora sejam minoria, felizmente existem bons exemplos de empresas que oferecem às colaboradoras a ampliação para seis meses. Analista financeira da Liderban, Maiara Rodrigues Rocha, mãe da Mariana (ambas na foto de abertura), acaba de retornar da licença-maternidade, depois de acompanhar integralmente o meio ano de vida da filha, graças à política interna da companhia.
“Quando o programa Tamanho Família foi apresentado e anunciaram a concessão de seis meses de licença-maternidade, eu fiquei extremamente emocionada. Estava no oitavo mês de gestação, com tudo planejado considerando os quatro meses tradicionalmente ofertados, e recebi a notícia de que teria mais 60 dias para permanecer cuidando da minha filha. Foi um alívio”, comenta a profissional.
A ampliação da licença foi determinante para que Maiara pudesse retornar ao trabalho com mais segurança. “A busca pelo crescimento profissional precisa continuar, inclusive para oferecer qualidade de vida aos nossos filhos. Acredito que o trabalho também é um combustível que ajuda a mulher a se reencontrar como pessoa.”
O acolhimento na volta ao trabalho também foi fundamental. “Sei da importância que tenho no meu setor e, ainda assim, houve cuidado e respeito para que eu pudesse viver a maternidade de forma mais tranquila e equilibrada. Isso mostra que o cuidado com as pessoas é real. Fui muito bem recebida por todos. Foi muito especial.”
Foto: Arquivo pessoal








