O peso do não dito nas empresas familiares
A consultora Susana Azevedo analisa quando conflitos pessoais atravessam a porta da sala de reunião
A reunião começa tensa. Ninguém fala diretamente sobre o problema, mas ele está presente na sala. Um diretor evita olhar para o outro. Uma decisão estratégica simples parece impossível de ser tomada. O clima é de desconforto e a comunicação confusa. O curioso é que o impasse não começou ali, nem tem relação com a pauta do encontro. A origem está no churrasco de domingo, quando uma discussão familiar acabou atravessando a porta da empresa na manhã de segunda-feira.
Esse tipo de situação é comum nas empresas familiares, onde as fronteiras entre relações pessoais e decisões de negócios nem sempre são claras. Quando emoções e conflitos ficam implícitos, surge o chamado "peso do não dito", capaz de afetar desde o ambiente de trabalho até a tomada de decisões estratégicas.
Como descreve o coach René Sonneveld, no livro The Elephant in the Family Room, empresas familiares são ambientes em que relações pessoais e profissionais estão profundamente entrelaçadas. Nesse contexto, sentimentos como orgulho e confiança podem impulsionar o negócio, mas emoções como medo, inveja ou ressentimento também podem influenciar decisões de forma silenciosa.
Susana Azevedo, especialista em desenvolvimento de lideranças e transformação cultural e sócia da Quantum Development, lembra que a combinação de relações familiares com decisões empresariais cria um sistema emocional mais complexo do que em organizações tradicionais. "Podemos ver um tipo diferente de sistema emocional complexo e intenso operando devido à existência de relacionamentos e laços familiares, história familiar, valores familiares e legado familiar. Todo esse cenário pode levar a emoções não ditas que alimentam conflitos não resolvidos, o que pode atrapalhar tanto o sucesso empresarial, o legado quanto a harmonia familiar."
Esses conflitos silenciosos costumam aparecer em sinais como decisões adiadas, perda de eficiência e dificuldades de alinhamento. Para Susana, medo, insegurança, inveja e ressentimento, ego e orgulho, desconfiança e ganância, como em um iceberg, são emoções operando de forma invisível. Quando esses temas deixam de ser abordados, os impactos podem atingir tanto a empresa quanto a própria família. E os resultados podem ser exatamente inverso ao que se deseja preservar, resultando em incapacidade de sustentar o negócio e relacionamentos familiares degradados.
TRANSFORMAR O SILÊNCIO EM DIÁLOGO
Apesar dos desafios, existem caminhos para transformar essas tensões em conversas produtivas. "As empresas familiares que têm mais sucesso podem ser aquelas que têm coragem de trazer essas tensões e emoções não ditas à tona e de conduzi-las com humildade e comunicação aberta", afirma Susana.
Entre as recomendações estão reconhecer explicitamente as dinâmicas familiares presentes no negócio, criar espaços estruturados de diálogo, desenvolver inteligência emocional e conversacional e estabelecer processos mais claros de governança e tomada de decisão. São intervenções que, na visão da consultora, quando apoiadas por especialistas, abrem a oportunidade de chegar ao cerne da questão e criar um caminho sustentável, ao mesmo tempo em que adaptam o legado familiar às necessidades em mudança entre gerações.
Foto: Shutterstock








