Decidir sem atalhos: aprendizados de uma liderança independente
Para Lucia Rossato, líder da Medley, equilibrar presente e futuro é uma das competências mais desafiadoras
Por Lucia Rossato*
Assumir a liderança de uma empresa que caminha rumo a sua independência não é apenas uma decisão estratégica. É a escolha consciente de decidir sem atalhos. Quando não há estruturas maiores para diluir responsabilidades ou postergar escolhas, cada decisão precisa ser clara, sustentada e assumida até o fim. E isso muda profundamente a forma de liderar.
Ao longo do último ano, vivi um período de escolhas intensas. Decisões que exigiram coragem para simplificar, encerrar ciclos e assumir responsabilidades de forma direta, sem intermediários. Liderar uma empresa stand-alone significa lidar com consequências de maneira integral. O acerto é seu. O erro também. E esse nível de exposição transforma o exercício da liderança.
Nesse contexto, aprendi que liderar não é sobre controle, mas sobre maturidade. Sobre criar ambientes onde as pessoas se sentem seguras para discordar, contribuir e decidir. Onde o erro não é um tabu, mas parte do processo de aprendizado. Onde autonomia vem acompanhada de responsabilidade real.
Uma das competências mais desafiadoras nesse caminho é equilibrar o presente e o futuro. A pressão por resultados imediatos existe, mas não pode inviabilizar decisões estruturantes. Liderar exige pragmatismo, uso consistente de dados e visão de longo prazo, sem romantizar a inovação nem engessar a operação. É um exercício contínuo de equilíbrio e discernimento.
Outro aprendizado fundamental foi entender que inclusão não é discurso. Ambientes diversos e seguros produzem decisões mais qualificadas, especialmente em contextos de alta complexidade. Ouvir diferentes perspectivas reduz riscos, amplia repertórios e fortalece a qualidade das escolhas. Para quem lidera, isso exige renunciar a certezas e aceitar que boas decisões raramente nascem de uma única visão.
A tecnologia também se impôs como um tema central. Transformação digital só gera valor quando faz sentido para as pessoas. Automatizar processos sem propósito cria ruído e complexidade. Transformar com intenção estratégica libera tempo, simplifica escolhas e permite foco no que realmente importa.
Por fim, a colaboração se mostrou indispensável. Em estruturas independentes, não há espaço para silos, vaidades ou feudos. O protagonismo precisa ser compartilhado, as metas claras e o alinhamento constante. Liderar passa a ser menos sobre centralizar decisões e mais sobre sustentar escolhas coletivas ao longo do tempo.
Ser uma mulher à frente de uma empresa independente é conviver com exposição, cobrança e decisões difíceis. Mas também é ter clareza de escolhas, disciplina na execução e coragem para abandonar práticas que já não sustentam o futuro, mesmo quando funcionaram no passado.
Hoje, acredito que liderar é, acima de tudo, criar contextos nos quais as pessoas conseguem tomar boas decisões todos os dias. Contextos baseados em confiança, autonomia responsável e alinhamento estratégico. É assim que sigo construindo meu caminho como líder: com consciência, responsabilidade e impacto real.
*Lucia Rossato é diretora geral da Medley
Foto: Divulgação/Medley








