DHO no Varejo - o custo de arrumar a casa e esquecer as pessoas
Um relato honesto sobre erros, aprendizados e o que os dados de 2025 nos ensinaram sobre desenvolvimento humano
Por Wiston Emerenciano da Silva*
Existe uma frase que ouço com frequência no varejo: rotatividade faz parte do setor. Durante anos, essa ideia foi tratada como verdade absoluta, inevitável, aceita, quase naturalizada. Quando assumi a gestão de pessoas do Grupo Bahniuk em 2021, encontrei exatamente esse cenário: um RH sem estrutura, sem cultura de feedback e sem uma resposta clara para a pergunta que mais importa: por que as pessoas saem?
Decidi que minha resposta seria construída com dados, metodologia e muita escuta. Mas ao longo do caminho, cometi um erro que só ficou visível quando os números de 2025 chegaram. Este artigo é sobre esse erro e sobre o que estamos fazendo para corrigi-lo.
A fundação: mais de 30 ferramentas construídas do zero
O primeiro passo foi entender que não dá para desenvolver pessoas em um ambiente sem clareza. Em quatro anos, estruturamos do zero mais de 30 ferramentas e iniciativas: ficha de acompanhamento para feedback contínuo, entrevista de desligamento e retenção preventiva, avaliação de desempenho, pesquisa de clima, KPIs por cargo, plano de cargos e salários, roteiro de progressão, PDI, manual do colaborador, guia para líderes, funil de contratação automatizado, campanhas de endomarketing e a Revista Bahniuk, publicada a cada dois meses.
A ficha de acompanhamento foi o divisor de águas. Antes dela, feedback acontecia por acidente. Com ela, criamos uma rotina estruturada de direcionamentos claros entre líderes e equipes. Nos primeiros meses, a interação aumentou mais de 40%. Não porque as pessoas mudaram. Porque criamos o espaço para que isso acontecesse.
Pertencimento começa no primeiro dia
Estrutura sozinha não retém pessoas. O que retém é pertencimento. E pertencimento começa antes mesmo do colaborador entender a operação.
Por isso criamos o Programa Mentor(a): todo novo colaborador, independentemente do setor em que entra, recebe um mentor dedicado durante os primeiros meses. Os mentores passam por treinamento específico e recebem orientações claras do que precisam executar junto ao novo integrante. O objetivo é direto: fazer com que cada pessoa sinta, desde o primeiro dia, que chegou a um lugar que a espera, que a acolhe e que tem um caminho para ela.
Criamos também o Ótimo Dia, um programa de alinhamento diário de no máximo 15 minutos, realizado em pé, no próprio ambiente de trabalho. Sem reunião formal, sem sala reservada. Uma conversa objetiva com os direcionamentos do dia e os principais pontos de melhoria da semana. Simples, rápido e com impacto direto na execução da operação.
E estruturamos treinamentos práticos em todos os setores, com ênfase em caixa e padaria. O modelo que adotamos não tira o colaborador do seu local de trabalho: o aprendizado acontece onde a função acontece, com simulações que fixam o conhecimento sem interromper a operação. Treinamento que não muda comportamento no dia a dia não é treinamento. É evento.
O que os dados de 2025 nos ensinaram
Mesmo com tudo isso construído, os dados de 2025 nos deram um alerta importante: a média de turnover do ano foi de 6,08%, com picos de 8,12% em fevereiro e 8,02% em janeiro. Seis meses acima de 6%. O diagnóstico foi preciso: arrumamos a casa, criamos os programas de acolhimento e rotina, mas faltou investir antes na formação coletiva da liderança que sustenta tudo isso. Fizemos muito PDI com indivíduos, mas a formação estruturada dos líderes ficou esperando. E o varejo não espera.
Reconhecer esse erro publicamente não é fácil. Mas é necessário, porque talvez você esteja cometendo o mesmo.
PDL, TAC e UniBah: a resposta que estava faltando
Nossa resposta veio no PDL, programa de desenvolvimento de líderes com 10 módulos que percorrem todas as áreas essenciais da operação. No TAC, metodologia de Treinamento, Acompanhamento e Cobrança que fecha o ciclo em três tempos: o treinamento entrega o conhecimento, o acompanhamento garante a aplicação e a cobrança fecha com responsabilização e correção de rota. Sem as três etapas funcionando juntas, o treinamento vira palestrinha e o desenvolvimento vira intenção.
E está nascendo a UniBah, nossa Universidade Corporativa, que garante que o conhecimento não dependa mais de uma pessoa ou de um momento favorável. Para conectar tudo isso à rotina, desenvolvemos o PeopleQuest, plataforma proprietária com missões práticas, gamificação, ranking entre pares, pesquisa de satisfação e dashboard em tempo real para a diretoria. É a espinha tecnológica da UniBah.
O que os números mostram:
► Mais de 350 colaboradores impactados diretamente por programas estruturados em 4 anos.
► Promoções internas em todos os níveis hierárquicos, do operacional ao gerencial.
► Taxa de sucessão interna acima de 70% nas vagas de liderança.
E 2025 nos mostrou que ainda há muito a avançar, e que o PDL, o TAC e a UniBah são exatamente a resposta que faltava.
O número que mais importa não está em nenhum relatório: é o colaborador que chegou como auxiliar, passou pelo PDI, entrou no PDL e hoje lidera uma equipe. Esse é o retorno real.
Turnover não é destino. É sintoma. Arrumar a casa é necessário, mas insuficiente. O que segura as pessoas é pertencimento real, construído com acolhimento desde o primeiro dia, rotina de desenvolvimento no dia a dia e liderança formada para multiplicar cultura. Não espere o momento perfeito para investir nas pessoas. O custo de esperar, os dados nos mostraram, é mais alto do que parece.
*Wiston Emerenciano da Silva é gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional da rede de varejo alimentar paranaense Grupo Bahniuk
Foto: Divulgação/Grupo Bahniuk








