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23/04/2025 - 18h29 Artigos

Como motivar a geração Z no trabalho

O trabalho precisa se encaixar na vida, e não o contrário, diz a empresária Ana Carolina Gozzi, integrante da GenZ


 

Por Ana Carolina Gozzi*

 

 

Quando eu tinha 15 anos, meu pai chegava em casa do trabalho todos os dias às oito da noite. Às vezes, mais tarde. Ele dizia que isso fazia parte de "construir uma carreira sólida." Era o preço a pagar para ser bem-sucedido. Eu cresci achando que o sucesso tinha esse formato: longas horas, poucas férias, muitas cobranças — e o tempo para a vida pessoal sempre ficando para depois.

 

Hoje, eu trabalho lado a lado com ele. A diferença é que eu não acredito que o sucesso precise ser assim. Quando eu assumi a coliderança da Compre & Alugue Agora, percebi rápido que a geração que eu estava liderando tinha outras prioridades. E, para ser bem sincera, eu também tinha.

 

A geração Z cresceu em um mundo onde tudo acontece rápido — informação, mudanças, crises. A gente aprendeu a se adaptar. A questionar. A entender que o trabalho é importante, mas que ele não é tudo. E é aí que começa o choque de gerações. Para o meu pai, o trabalho sempre foi o centro da vida. Para a minha geração, o trabalho precisa se encaixar na vida, e não o contrário.

 

Então, como motivar uma geração que quer mais do que um bom salário e um plano de saúde? Vou te contar o que tenho aprendido na prática, administrando uma empresa ao lado de um líder de outra geração — e encontrando o equilíbrio entre o que funciona para ele e o que funciona para mim.

 

1. Dê um plano de carreira claro (mas sem rigidez)

Meu pai sempre dizia que um bom funcionário precisava "subir degrau por degrau." Mas a geração Z não tem paciência para uma escada que parece não ter fim. Nós precisamos de uma visão clara de crescimento — mas com flexibilidade. Queremos saber que existe um caminho, mas também queremos a liberdade de mudar de direção se o caminho deixar de fazer sentido. Um plano de carreira precisa ser estruturado, mas também adaptável. Algo como um mapa aberto, não um caminho fixo.

 

2. Dê voz ativa — e escute de verdade

Quando eu comecei a liderar a empresa, percebi que meu pai tinha um estilo mais tradicional de comando: ele tomava as decisões, a equipe executava. Com a geração Z, isso não funciona. A gente não quer só ser ouvido — a gente quer ser levado a sério. Queremos sugerir, mudar, discordar, encontrar soluções juntos. Queremos que a nossa voz tenha impacto real nas decisões. E quando isso acontece, o engajamento é automático.

 

3. Respeite a relação entre trabalho e vida pessoal

Se tem uma coisa que a minha geração aprendeu é que o trabalho não pode engolir a vida. E isso não é preguiça — é equilíbrio. Meu pai me ensinou que um bom líder dá o exemplo. Então, eu tento sair do escritório em um horário decente, respeito os horários de folga da equipe e incentivo que todo mundo cuide da saúde mental. Uma equipe descansada e feliz entrega resultados melhores — e mais rápido.

 

4. Seja flexível — horários, formatos, processos

A geração Z não funciona bem em um ambiente rígido. Eu vejo isso claramente na diferença entre o meu estilo e o do meu pai. Ele sempre acreditou que a presença física no escritório era essencial. Eu, por outro lado, entendo que algumas pessoas trabalham melhor em casa, outras preferem horários alternativos. O importante é o resultado, não o caminho para chegar até ele.

 

5. Feedback constante (e honesto)

Eu cresci ouvindo o meu pai falar que um bom funcionário "sabe o que tem que fazer sem precisar de elogio." Mas a minha geração é diferente. A gente precisa de feedback constante para se sentir motivado — não só críticas construtivas, mas também reconhecimento. Saber que estamos no caminho certo, que nossas ideias estão funcionando, nos faz sentir parte do processo. Não é insegurança — é conexão.

 

6. Priorize a responsabilidade social

Essa talvez seja a maior diferença entre minha geração e a do meu pai. Ele sempre focou em resultados — números, faturamento, crescimento. Eu aprendi que o crescimento precisa ser sustentável. A geração Z quer trabalhar em empresas que tenham um propósito real, que impactem positivamente o mundo. A gente quer saber que está construindo algo maior do que um balanço trimestral. E sabe o que é curioso? Meu pai também está começando a entender isso.

 

Ainda estamos aprendendo a administrar essa empresa juntos. Ele com a experiência, eu com a visão de futuro. Ele com a confiança nos métodos tradicionais, eu com a vontade de testar o novo. Não é sempre fácil — a gente discorda, às vezes bate cabeça, mas, no fim, encontramos um ponto em comum. Porque o mercado está mudando. E as empresas que vão sobreviver não são as que se mantêm fiéis aos modelos antigos — são as que aprendem a escutar.

 

A geração Z não quer só um salário. A gente quer espaço para crescer, ser ouvido, ter flexibilidade, encontrar propósito. E isso não é só uma questão de adaptar o ambiente de trabalho — é uma questão de tornar o trabalho mais humano. Porque, no fim das contas, essa geração quer o mesmo que qualquer outra: ser valorizada pelo que entrega, pelo que é e pelo que pode se tornar.

 

Meu pai me ensinou muita coisa sobre liderança. Agora, talvez seja a minha vez de ensinar algo a ele.

 

*Ana Carolina Gozzi é co-CEO da Compre & Alugue Agora e fundadora da Artêmia Co.

 

 

 

Foto:Patrícia Soransso

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