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05/03/2025 - 16h50 Artigos

Ansiedade da pausa

Precisamos resolver a inquietação nos momentos de descanso, diz Paula Albuquerque, do RH do iFood


 

 

Por Paula Carvalho Albuquerque*

 

 

A pausa, para muitos, tornou-se um território desconhecido. Em um mundo onde a produtividade é constantemente exaltada, momentos de descanso muitas vezes são vistos com culpa ou inquietação. Já percebeu como, ao tirar férias ou simplesmente tentar relaxar, a mente permanece acelerada? A sensação de que há algo a ser feito não desaparece e, em vez de desfrutar do momento, surge uma angústia inesperada.

 

Essa experiência não é incomum e reflete um fenômeno mais profundo: a dificuldade de desacelerar não está na pausa em si, mas na forma como fomos treinados para funcionar. Em ambientes corporativos e na vida pessoal, somos condicionados a medir nosso valor pelo volume de tarefas concluídas, pelas metas atingidas e pelo ritmo intenso. O tempo livre, então, torna-se um paradoxo, desejado, mas difícil de usufruir.

 

Em alguns momentos da minha carreira, ao iniciar um período de férias, percebia o quanto minha mente resistia à mudança de ritmo. Nos primeiros dias, sentia inquietação, como se estivesse negligenciando responsabilidades. Mesmo sem pendências urgentes, a sensação de "deixar coisas para trás" gerava desconforto. Era como se a pausa precisasse ser justificada para ser aceita. Esse padrão mental, porém, não é apenas um reflexo individual, mas um sintoma do contexto em que estamos inseridos.

 

No ambiente profissional, a noção de alta performance muitas vezes é associada a um estado de atividade constante. No entanto, pesquisas em neurociência e psicologia organizacional apontam que períodos de descanso não apenas aumentam a produtividade, como são essenciais para a tomada de decisão, a criatividade e a inteligência emocional. O cérebro precisa de pausas para processar informações, consolidar aprendizados e gerar novas conexões. Grandes líderes compreendem isso intuitivamente, momentos de reflexão estratégica são tão valiosos quanto a execução.

 

A pausa, quando bem aproveitada, não é um intervalo sem propósito, mas um espaço fértil para o autoconhecimento. No silêncio, conseguimos perceber aquilo que a rotina ofuscava: emoções não processadas, sinais sutis do corpo, intuições sobre decisões importantes. A escuta interna, habilidade fundamental para liderança e desenvolvimento pessoal, só é possível quando há espaço para que ela aconteça.

 

Mas como transformar a pausa em uma aliada e não em uma fonte de ansiedade? Primeiramente, é necessário reformular a percepção sobre descanso. Em vez de vê-lo como um afastamento da produtividade, é preciso reconhecê-lo como parte dela. Líderes eficazes sabem que o desempenho sustentável não vem do esforço ininterrupto, mas do equilíbrio entre ação e recuperação.

 

Outra estratégia é praticar pequenas pausas ao longo do dia. Não se trata apenas de férias ou folgas prolongadas, mas de momentos estratégicos de desaceleração. Respirar profundamente antes de uma reunião importante, caminhar sem estímulos digitais, dedicar minutos diários à reflexão – são pequenos ajustes que reprogramam a mente para lidar melhor com o silêncio.

 

Além disso, é fundamental diferenciar descanso de fuga. Muitas vezes, ao sentir cansaço, buscamos distrações superficiais como redes sociais, excesso de consumo de informação, atividades que mantêm a mente ocupada sem realmente regenerá-la. O verdadeiro descanso envolve presença e qualidade, permitindo que corpo e mente se recuperem de forma genuína.

 

A pausa não deve ser vista como um luxo ou um sinal de improdutividade, mas como um componente estratégico da alta performance e do bem-estar. Profissionais e líderes que compreendem isso não apenas melhoram sua qualidade de vida, mas tomam decisões mais assertivas, inovam com mais frequência e desenvolvem inteligência emocional para lidar com desafios complexos.

 

O medo de parar, no fundo, é o medo de se confrontar com o que o silêncio revela. Mas e se, em vez de resistirmos, aprendêssemos a usar esses momentos como oportunidades de crescimento? No fim, o verdadeiro poder não está no quanto fazemos, mas na clareza e intenção com que escolhemos cada ação. E é na pausa que encontramos esse poder.

 

 

*Paula Carvalho Albuquerque é coordenadora sênior de RH  do iFood e mentora em liderança

 

 

Foto: Lari Ferreira

 

 

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