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02/08/2022 - 19h33 Artigos

Chegou agosto a gosto do freguês

Situações fora do nosso controle acontecem, mas cabe a nós atribuir significados a elas, diz Marcelo Madarász


 

 

 

Por Marcelo Madarász*

 

 

Conhecido por muitos como o mês do desgosto, ele nem existia no calendário romano, a exemplo do mês que o precede, julho. Surgiram, respectivamente, como homenagens aos imperadores Júlio César e César Augusto. Mês do cachorro louco, muito provavelmente porque a incidência de raiva nesse mês é maior. A explicação seria pela quantidade de cadelas e outras fêmeas no cio, ocasionando maior disputa entre os machos e, nessas brigas, maiores chances de transmissão. Sem nos profundarmos na quantidade de lendas ligadas ao mês e menos ainda às tentativas de explicações, agosto pode nos trazer reflexões bastante importantes. Vale a pena conhecer um pouco mais sobre as teorias nas quais construímos nossa realidade, construímos nosso futuro.

 

Há uma força inquestionável em nossa mente e, embora o pensamento não seja o criador de todo sofrimento, é sem dúvida responsável por boa parte dele. Damos aos fatos o valor e significado que quisermos, portanto se acreditarmos num mundo de ó vida, ó azar, a possibilidade de atrairmos esta energia mais negativa aumenta sensivelmente. Se eu acredito que determinado mês ou dia trarão desgosto, eu crio uma narrativa para eles e consigo aumentar as chances de que de fato venham dissabores. Não estou negando o fato de que há inúmeros desafios e na jornada humana existem elementos que trazem rupturas: crises, doenças, perdas, separações, injustiças, desgraças de toda ordem. Podemos dizer que são elementos inerentes à nossa trajetória e deles não podemos escapar, mas como disse Jean Paul Sartre, o homem é condenado à liberdade e, portanto, é condenado a fazer escolhas. “Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer”.

 

Há inúmeras situações que certamente não estão no nosso controle. Elas acontecem, mas cabe a cada um de nós atribuirmos significados a elas e, portanto, escolhermos as nossas reações. Como exemplo, posso acordar hoje e ao me deparar com um dia chuvoso, me entristecer e ficar deprimido, ou posso ficar maravilhado com a beleza da chuva, das árvores molhadas, do cheiro da terra e lembrar que tudo na vida tem ciclos e, portanto, haverá dias de sol, dias de chuva e as quatro estações simbolizando este ciclo infinito.

 

A pandemia obrigou empresas a colocarem seus colaboradores em trabalho remoto. Os colaboradores descobriram um universo que haviam esquecido: que há vida fora das quatro paredes dos escritórios e muitas outras maneiras de se fazer algo. Acordar muito cedo, preparar-se para uma viagem, ir para o aeroporto, pegar o voo, deslocar-se, alugar carro ou pegar um Uber ou táxi, ir para o local da reunião etc., etc. e com tudo isso perder um dia inteiro para uma reunião de duas horas pôde ser substituído pelo zoom. Com isto, muitas reflexões vieram à tona e desencadearam reações em cadeia. Muitos não querem renunciar a tudo que conquistaram e que revelam possibilidade de uma maior qualidade de vida. Essas reflexões nos remetem novamente à expressão título – ao gosto do freguês.

 

Para cada uma das situações pessoais, familiares, sociais, profissionais que nos acontecerem, sempre dependerá de nós a escolha de como vamos lidar com aquilo. Posso ser demitido e pensar que minha vida acaba ali, ou simplesmente enxergar que essa mudança que não escolhi pode significar um mundo de oportunidades que se abre. Posso receber um feedback do meu gestor e pensar que ele quer me destruir ou enxergar ali um tesouro de dicas para que eu me aperfeiçoe em algo e evolua por conta deste reposicionamento. Posso enxergar naquela pessoa difícil, que de forma precipitada chamo de inimigo, fonte de sombras que acionam os meus piores gatilhos e posso enxergá-la como um mestre que veio me ensinar algo, talvez algo da minha própria sombra, que nego em mim e projeto nessa criatura.

 

Não se trata de fazer o jogo do bobo, que vê tudo com uma lente cor-de-rosa e, portanto, artificial, mas de perceber que o maior sofrimento é o apego ao sofrimento e que cabe a nós escolhermos um caminho diferente. Se você conseguir isso, agosto – se assim você quiser – pode ser o melhor mês da sua vida! Viva a beleza de cada mês e de cada momento como um milagre pelo qual devemos ter muita gratidão!

 

 

 

*Marcelo Madarász é diretor de RH para América Latina da Parker Hannifin

 

 

Foto: Marcos Suguio

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