Salário digno ganha força como estratégia de desenvolvimento sustentável
Evento da FGV Eaesp discutiu como essa iniciativa fortalece empresas, trabalhadores e a economia
Mais do que uma questão remuneratória, o salário digno precisa ganhar espaço nas estratégias de negócios e nas agendas de sustentabilidade das empresas. Esse foi o fio condutor do encontro Capital Humano e Prosperidade: o papel do Salário Digno. Promovido pelo Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (Neop), da FGV Eaesp, em São Paulo, o evento convidou as lideranças corporativas para transformar reflexão em ação.
Na presença de pesquisadores, executivos e lideranças empresariais, os painelistas destacaram: garantir condições adequadas de remuneração e desenvolvimento aos trabalhadores contribui não só para reduzir desigualdades, mas também para aumentar a produtividade, fortalecer a competitividade das organizações e gerar valor de longo prazo.
Nesse sentido, Maria José Tonelli, professora do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da FGV Eaesp, abriu o evento falando da importância de aproximar academia, empresas e sociedade civil na construção de soluções capazes de promover prosperidade econômica e dignidade no trabalho.
Os impactos das mudanças demográficas sobre o mercado de trabalho brasileiro foram apontados em um painel coordenado por Flávio Pesiguelo, líder do comitê de Pessoas da Dengo Chocolates, empresa adepta do salário digno. Participante do debate, o economista André Portela, professor titular de Políticas Públicas da Escola de Economia da FGV, trouxe à pauta que, diante do envelhecimento da população e da desaceleração do crescimento da força de trabalho, elevar a produtividade será fundamental para sustentar o desenvolvimento do país. E também destacou que o conceito de salário digno vai além da remuneração financeira; ele cria condições para garantir segurança, autonomia e qualidade de vida aos trabalhadores. André defendeu, ainda, que a agenda considere as diferenças regionais e alertou para o desafio representado pela elevada informalidade no Brasil.
Consultora e conselheira de empresas, Vicky Bloch ampliou o debate ao afirmar que a dignidade começa antes mesmo do salário. Para ela, respeito, desenvolvimento contínuo, educação financeira e fortalecimento da empregabilidade precisam fazer parte da cultura organizacional. Ela alertou que os conselhos de Administração ainda tratam o salário justo como excessivamente abstrato, o que demanda maior sensibilização e conexão com os resultados do negócio. E provocou: "Não podemos devolver ao mercado pessoas obsoletas".
Ao lado de Vicky, Estevan Sartoreli, cofundador da Dengo, salientou que investir em salário digno significa fortalecer toda a cadeia produtiva. Segundo o executivo, adotá-lo aumenta engajamento e reduz custos com turnover, perda de conhecimento e novas contratações; além de contribuir para a sustentabilidade dos negócios. "Salário digno não é custo. É investimento", resumiu.
EXPERIÊNCIAS EMPRESARIAIS
Além da Dengo, outras empresas que já aderiram ao salário justo participaram do evento para falar de suas práticas. O painel foi mediado por Flávia Vianna, gerente do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, que iniciou lembrando a importância de compreender a diferença entre salário justo e salário digno, este baseado em metodologias referenciadas que consideram o atendimento das necessidades básicas dos trabalhadores e suas famílias, incluindo-se aí uma reserva para suprir imprevistos.
Representando a Natura, Gleyce Leite, diretora de Organização, Remuneração e Digitalização de RH, apresentou a estratégia da companhia baseada nos compromissos públicos de direitos humanos e sustentabilidade.
A iniciativa inclui a adoção de metodologias internacionais para mensurar remuneração digna, revisão de políticas de gestão de pessoas, integração do tema ao modelo de negócios e atuação junto a parceiros e fornecedores. "Precisamos reconhecer que podemos avançar, criar repertório e gerar convicção. Garantir renda digna não é somente um objetivo econômico, mas também uma forma de reduzir desigualdades sociais”, ressaltou Gleyce.
Já Bayer teve como destaque a adaptação das políticas às diferentes realidades da companhia, especialmente para trabalhadores safristas, além de investimentos em capacitação e monitoramento constante dos impactos da iniciativa. “A dignidade deve ser tratada como uma agenda do ser humano”, resumiu Carolina Chiavone, head de Total Rewards da empresa.
Pela Mills, o CRHO Kleber Racy compartilhou uma jornada iniciada há mais de cinco anos, que integrou o tema à estratégia corporativa. Entre os resultados apresentados, ele citou a redução da taxa de desligamento dos profissionais impactados pela política, de 30% para 9% em apenas um ano, além da ampliação das discussões sobre salário digno para a cadeia de fornecedores. Kleber frisou que trata-se de uma jornada que precisa estar integrada com a agenda dos negócios da empresa.
Ao encerrar o painel, Flávia deixou a mensagem: “O salário digno não é uma iniciativa isolada de algumas organizações, mas um movimento global que convida empresas a exercerem um papel protagonista na construção de uma economia mais justa, competitiva e sustentável”.
AGENDA ESTRATÉGICA
A agenda do salário digno aproxima competitividade empresarial, desenvolvimento econômico e impacto social. Mais do que uma pauta de RH ou de sustentabilidade, o tema tem que estar presente na agenda de liderança e de governança e deve ser tratado com visão de longo prazo.
No encerramento, Guilherme Cavalieri, consultor em RH e conselheiro de empresas, destacou que o Brasil, marcado por profundas desigualdades sociais, exige uma atuação cada vez mais protagonista das empresas, de suas lideranças e de seus conselhos de administração. Na visão do especialista, mais que uma política corporativa, o salário digno é um compromisso ético com a construção de uma sociedade mais justa, produtiva e inclusiva.
Foto: Divulgação/FGV Eaesp







