Imagem da matéria 83% das maiores empresas brasileiras declaram valorizar as pessoas, aponta estudo da Santo Caos
14/09/2026 - 15h55 Governança

83% das maiores empresas brasileiras declaram valorizar as pessoas, aponta estudo da Santo Caos

Mas até que ponto o valor declarado orienta a cultura organizacional no dia a dia?


Pessoas, Ética e Inovação formam a tríade mais presente entre os valores declarados pelas 500 maiores empresas brasileiras. Juntos, os três temas representam 54% das 2.515 declarações analisadas pelo estudo DNA Cultural Brasileiro 2026, realizado pela consultoria Santo Caos. Ao todo, 88% das organizações pesquisadas têm pelo menos um deles entre seus valores institucionais.

 

Quando a atenção é focada em Pessoas, o dado chama ainda mais atenção: 83% das empresas declaram algum valor relacionado ao cuidado com as pessoas, tornando o tema o mais recorrente entre as organizações analisadas.

 

Para Jean Soldatelli, sócio-fundador da Santo Caos, o resultado revela um traço importante da cultura brasileira. “Cuidado às pessoas” aparece de forma disseminada entre empresas de diferentes setores, regiões, portes e tipos de organização, o que expressa uma característica mais relacional da sociedade brasileira. “Não é à toa que muitas empresas dizem ‘aqui nós somos uma família’, justamente porque há uma associação de que trabalhar para o brasileiro também é construir vínculos”, diz o executivo. E, nesse caso, uma empresa que não verbaliza o foco em pessoas é vista com estranheza.

 

Entretanto, diz Jean, a tradução do que é “cuidar das pessoas” certamente vai ser diferente para cada uma. E declarar que as pessoas são importantes não significa, necessariamente, construir uma cultura orientada para elas.

 

Inconsistência cultural

Na Santo Caos, cultura é definida como o conjunto do discurso, das decisões, do dinheiro, da dinâmica e do design organizacional. Na prática, isso significa observar não apenas o que a organização afirma valorizar, mas também os critérios usados para tomar decisões, aquilo em que investe, o que recompensa, como distribui responsabilidades e poder e quais comportamentos estimula.

 

O modelo OCAI, utilizado pelo estudo para identificar estilos culturais predominantes, ajuda a contextualizar esse resultado. Entre as maiores empresas brasileiras, 59% apresentam o estilo clã como dominante no discurso, perfil associado a características como colaboração, pertencimento e cuidado com as pessoas. Jean explica que o dado não deve ser interpretado como uma fotografia da cultura praticada, pois a pesquisa analisou informações públicas e, especificamente, as declarações de valores. Para identificar a cultura efetivamente vivenciada, seria necessário investigar o funcionamento interno das empresas.

 

Ou seja, não necessariamente os 59% identificados pelo OCAI colocam esses valores na prática ou que tenham essa característica cultural predominante no seu dia a dia. É justamente nessa diferença que surge uma das principais provocações do estudo.

 

O próprio levantamento encontrou um dado que reforça essa reflexão: 64% das maiores empresas brasileiras possuem ao menos uma “empresa-gêmea cultural”, conceito criado pela Santo Caos para identificar organizações que declaram exatamente o mesmo conjunto de valores.

 

Para Jean, se cultura é o jeito de ser de um grupo, seria esperado que os valores revelassem características particulares daquela organização. A repetição dos mesmos conjuntos de palavras entre empresas de negócios e contextos diferentes sugere, portanto, que parte desse discurso pode estar relacionada às expectativas externas – de investidores, sociedade, clientes ou outros públicos – e não necessariamente à identidade interna.

 

Essa, diz ele, talvez seja a maior surpresa desse estudo. Usar um valor como justificativa de uma expectativa de um acionista ou de um órgão de fiscalização é fazer uma promessa pública apenas para fora, mas desconsiderar como internamente, no que chama de teatro cultural. “Empresas como Nokia e Kodak são exemplos disso. Tinham valores no seu discurso, mas não na sua prática. Essa incoerência gerou custos invisíveis que cobraram caro: eu vendo inovação para meus acionistas, mas pratico aversão a erros e padronização excessiva com meus colaboradores. Assim, a estratégia fala uma coisa que a tática não consegue cumprir”, cita.

 

É nesse ponto que, na visão do executivo, existe uma oportunidade para o RH ampliar sua atuação estratégica. A área pode ajudar a identificar os custos invisíveis das inconsistências culturais, como processos que se arrastam, necessidade de excesso de aprovações, incentivos que estimulam comportamentos contraditórios, decisões desalinhadas e práticas de gestão que não correspondem aos valores anunciados. Ao fazer isso, demonstra a dimensão de sua importância para o negócio.

 

A discussão também coloca em xeque uma associação frequente nas organizações: a ideia de que uma boa experiência, satisfação ou engajamento dos colaboradores seja suficiente para caracterizar uma cultura saudável.

 

Cultura e clima, frisa Jean, são dimensões diferentes. “Inclusive, em muitas empresas, a área tem os dois nomes, mas faz uma coisa só, achando que uma certificação ou um score positivo de satisfação dos colaboradores significa uma cultura boa, o que não necessariamente é verdade”. Ou seja, uma empresa pode apresentar bons indicadores de satisfação e, ainda assim, manter incoerências no seu sistema cultural que dificultam a execução da estratégia.

 

Cuidar das pessoas é diferente de incluir

No estudo, a Santo Caos separou os valores relacionados a Pessoas e Bem-estar daqueles associados a Inclusão e Identidade. A distinção pode parecer sutil, mas revela duas concepções diferentes.

 

Jean conta que o debate linguístico foi um aprendizado importante do estudo. Ele explica que, a princípio, Inclusão não tinha uma categoria própria. Alguns dos seus pontos estavam em Pessoas e Bem-estar, e outros estavam em Ética e Integridade, como a questão do respeito. Porém, ao analisar de forma mais detalhada, percebeu-se que separar essa categoria mostraria um fator levemente diferente da semântica corporativa: bem-estar é cuidar das pessoas; inclusão é fazer com que as pessoas possam ser elas mesmas. “Parece similar, mas a tradução é diferente: no primeiro, eu posso apenas cuidar dos meus; no segundo, eu faço com que todas as pessoas se sintam bem ali.”

 

Os números ajudam a dimensionar essa diferença. Sete em cada dez empresas que declaram Inclusão também apresentam um valor relacionado a Pessoas. Mas apenas duas em cada dez empresas que declaram Pessoas também mencionam Inclusão. Ou seja, é muito mais comum encontrar no discurso corporativo referências ao cuidado, à confiança e ao bem-estar do que declarações explícitas relacionadas às diferenças, à equidade e à construção de ambientes inclusivos.

 

De acordo com o executivo, enquanto o cuidado com as pessoas aparece como uma espécie de padrão legitimado no contexto corporativo brasileiro, a inclusão está mais relacionada à identidade e às crenças que uma empresa pretende assumir como próprias.

 

O desafio para o RH

Se 83% das maiores empresas brasileiras dizem valorizar as pessoas, o próximo passo talvez seja menos perguntar se a organização tem esse valor e mais investigar como ele aparece no funcionamento da empresa.

 

É uma mudança de perspectiva que pode recolocar o RH no centro da discussão sobre cultura. Em vez de apenas comunicar valores ou acompanhar a percepção dos colaboradores, a área pode ajudar a verificar se esses valores influenciam decisões, processos, incentivos, liderança e comportamentos.

 

Para Jean, esse é justamente o desafio dos líderes de RH: “retomar as rédeas do discurso” e garantir que os valores declarados orientem, de fato, as práticas internas. “As palavras que estão na parede precisam aparecer no dia a dia. Caso contrário, talvez seja hora de tirá-las de lá”, conclui.

 

 

Foto: Shutterstock

Últimas notícias

Imagem da matéria 83% das maiores empresas brasileiras declaram valorizar as pessoas, aponta estudo da Santo Caos
83% das maiores empresas brasileiras declaram valorizar as pessoas, aponta estudo da Santo Caos
Governança - 14/09/2026 - 15h55
Mas até que ponto o valor declarado orienta a cultura organizacional no dia a dia?
Ver MAIS
Imagem da matéria Cobrança excessiva por cuidado com a saúde ganha riscos maiores de wellness burnout
Cobrança excessiva por cuidado com a saúde ganha riscos maiores de wellness burnout
Saúde e Bem-Estar - 11/09/2026 - 18h04
Busca frenética por rotina saudável pode fazer do autocuidado fonte de culpa e pressão, alerta especialista
Ver MAIS
Imagem da matéria IA acelera mudança na forma como empresas desenvolvem profissionais
IA acelera mudança na forma como empresas desenvolvem profissionais
Radar - 10/09/2026 - 12h28
Mudanças rápidas nas funções e ferramentas levam à adoção de jornadas contínuas de aprendizagem
Ver MAIS
Imagem da matéria O paradoxo do desempenho sustentável
O paradoxo do desempenho sustentável
Coluna - 09/09/2026 - 16h36
Recursos Humanos pode liderar a agenda de saúde mental, mas a alta liderança precisa assumir a sua parte
Ver MAIS

Notícias mais lidas

Imagem da matéria Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Recrutamento & Seleção - 26/02/2026 - 10h59
Chamada de A.R.A - Agente Robótica Aramis, solução fortalece a estratégia fashion tech da companhia
Ver MAIS
Imagem da matéria O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
Artigos - 27/04/2026 - 12h27
CEO do Andbank conta como a rotina de ciclismo, triathlons e maratonas contribui no seu desempenho como líder
Ver MAIS
Imagem da matéria Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Diversidade & Inclusão - 07/05/2026 - 10h43
Mas, ao se tornarem mães, mulheres ainda enfrentam dificuldades para manter o emprego, diz especialista
Ver MAIS
Imagem da matéria Deel apresenta as nove tendências de trabalho para 2026
Deel apresenta as nove tendências de trabalho para 2026
Radar - 12/12/2025 - 15h50
A volta da busca por estabilidade no emprego é uma delas, de acordo com dados da companhia
Ver MAIS
 Teste GRÁTIS por 7 dias