Cobrança excessiva por cuidado com a saúde ganha riscos maiores de wellness burnout
Busca frenética por rotina saudável pode fazer do autocuidado fonte de culpa e pressão, alerta especialista
Alimentação regrada, exercícios diários, sono monitorado, meditação, suplementos, entre outras ações de cuidado pessoal, podem fazer parte de uma rotina considerada saudável, mas existe um risco grande de atingir o efeito contrário quando elas se transformam em metas. É nesse contexto que ganha força o conceito de wellness burnout, usado para descrever o esgotamento provocado pela própria pressão de manter um estilo de vida saudável. No Brasil, essa discussão ganhou peso com a inclusão do gerenciamento de riscos psicossociais na NR-1, demandando das empresas olhar com mais atenção para as condições que podem afetar a saúde mental dos colaboradores. Para fundamentar a preocupação com o tema, vale lembrar que os afastamentos por síndrome de burnout no país saltaram de 823 em 2021 para 7.595 em 2025, um aumento de 823%, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
A nutricionista e pesquisadora Brunna Boaventura, PhD, alerta que esse cenário abre margem para o acúmulo dessas duas frentes de pressão, especialmente quando os gestores adotam a cultura do bem-estar dentro das empresas como parâmetro profissional. Segundo ela, um incentivo ao autocuidado pode ser positivo, mas passa a ser problemático quando determinados hábitos são apresentados como obrigação ou como sinal de disciplina e comprometimento profissional.
"É comum encontrarmos líderes que realmente incorporam hábitos muito saudáveis à própria rotina. O problema é quando esse comportamento vira uma régua para avaliar os outros que, dependendo de suas funções, não dispõem do mesmo tempo. Se o gestor acorda às cinco da manhã, treina todos os dias e mantém uma alimentação extremamente controlada, pode acabar considerando preguiçoso quem não consegue fazer o mesmo", afirma Brunna.
Ela assinala que, quando o autocuidado passa a ser mais uma cobrança, perde justamente a função que deveria ter em relação ao bem-estar, pois o receio de perder o emprego ou ser julgado e discriminado por seus hábitos, pode fazer com que o colaborador tente cumprir algo que não consegue, aumentando ainda mais a autocobrança e a insatisfação com o trabalho e com a vida no geral. Além disso, cabe ao gestor o bom senso de que as pessoas vivem realidades diferentes: deslocamento, filhos, responsabilidades domésticas, condições financeiras e até momentos específicos da vida podem interferir decisivamente e na possibilidade de adotar determinada rotina.
Com as mudanças na NR-1, a especialista orienta as empresas a observarem se a própria cultura organizacional não está produzindo pressão sobre a saúde mental, em vez de preservá-la. Também é essencial que a empresa compreenda o seu papel como promotora de saúde e na prevenção de doenças, visto que os colaboradores passam a maior e melhor parte da sua vida no ambiente de trabalho. “O bem-estar também depende da forma como o trabalho é organizado", afirma Brunna.
Na visão da especialista, o conceito do wellness burnout ajuda a ampliar a discussão. "É preciso expandir a visão de bem-estar dentro das organizações, não apenas incentivando ações de wellness, voltadas a aspectos de hábitos de saúde, mas proporcionar atividades que promovam o bem-estar geral dos colaboradores, com o foco no florescimento de cada um, resgatando inclusive o senso de propósito nas atividades laborais".
O problema, portanto, não está em querer dormir melhor, fazer exercícios ou se alimentar bem, mas em transformar esses comportamentos em uma espécie de obrigação permanente. Brunna conclui que, em muitos momentos, a realidade exige que o ritmo seja reduzido: "Isso não significa fracasso. Descansar também faz parte de uma vida saudável".
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