Tempo de deslocamento ainda impacta decisão profissional, avalia executiva de RH da Redarbor
Com a retomada de trabalho presencial, empresas estão sentindo efeito direto nas candidaturas
Mesmo após a consolidação do trabalho híbrido e o avanço das ferramentas digitais, o deslocamento continua sendo um dos fatores relevantes na decisão profissional dos brasileiros. Com parte das empresas retomando atividades presenciais em maior escala, candidatos passaram a analisar com mais cuidado o impacto da rotina de deslocamento antes de aceitar uma oportunidade. Em muitos casos, vagas localizadas longe da residência do profissional vêm enfrentando maior dificuldade de conversão e taxas mais elevadas de desistência ao longo do processo seletivo.
“O deslocamento voltou a ocupar um espaço muito importante na decisão profissional porque impacta diretamente a rotina, bem-estar e percepção de qualidade de vida. Hoje, muitos candidatos fazem uma conta muito mais racional sobre tempo gasto, custo de transporte e desgaste emocional antes de se candidatar", afirma Patrícia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil, dona do Infojobs.
O comportamento dos candidatos reforça essa tendência de forma mais intensa do que muitas empresas imaginavam. Vagas com localização detalhada e acesso facilitado tendem a receber maior volume de candidaturas; já processos que omitem o endereço ou a frequência presencial enfrentam taxas mais altas de desistência ao longo da seleção.
A discussão vai além da comodidade. Em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os profissionais podem gastar entre duas e quatro horas por dia em deslocamentos longos, dependendo da região e do modal utilizado. O impacto acumulado dessa rotina passou a influenciar a satisfação profissional, produtividade e até permanência nas empresas. Ao mesmo tempo, as empresas perceberam que a localização pode funcionar como vantagem competitiva na disputa por talentos. Organizações instaladas em regiões com acesso facilitado ao transporte público, próximas de polos residenciais ou que oferecem modelos híbridos mais flexíveis tendem a atrair candidatos com maior velocidade. Em contrapartida, empresas localizadas em áreas de difícil acesso enfrentam desafios crescentes de recrutamento, especialmente para posições operacionais e presenciais.
Outro movimento importante é a valorização da transparência nas vagas. Profissionais passaram a evitar processos seletivos que não deixam claro o endereço de trabalho, modelo de atuação ou frequência presencial exigida. Em um cenário onde o tempo virou ativo estratégico, candidatos buscam reduzir incertezas logo nas primeiras etapas da candidatura.
"Existe hoje uma relação muito mais pragmática entre profissionais e trabalho presencial. As pessoas entendem o valor da convivência e da troca física, mas também passaram a calcular o custo real da mobilidade na rotina. Isso influencia diretamente na atração, retenção e até engajamento", explica Patrícia.
A preocupação é ainda mais evidente entre profissionais mais jovens. Para muitos candidatos da geração Z, longos deslocamentos passaram a representar um modelo de carreira menos sustentável, especialmente diante da possibilidade de atuação híbrida em diferentes setores. Patrícia enfatiza que o endereço da empresa deixou de ser apenas uma informação operacional para se tornar um fator estratégico de recrutamento. "Organizações que conseguem equilibrar presença física, acessibilidade e flexibilidade tendem a ganhar vantagem não apenas na atração, mas também na retenção de talentos", finaliza.
Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock








