A biologia do silêncio organizacional
Simone Gasperin aborda o desafio de criar ambientes organizacionais onde as incertezas não paralisam as pessoas
Por Simone Gasperin*
Existe uma tendência recorrente nas organizações de tratar segurança psicológica como um estado desejável: um ambiente onde as pessoas se sentem confortáveis, acolhidas e livres para falar. Mas essa definição, apesar de correta, é perigosamente incompleta.
O que sustenta a segurança psicológica é a capacidade de permanecer em contextos de incerteza sem que isso paralise o pensamento, a tomada de decisão ou a qualidade das relações.
Um episódio publicado em abril do podcast The Curiosity Shop, com Adam Grant, psicólogo organizacional e professor da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, e a renomada escritora e pesquisadora Brené Brown, explora essa ideia ao mostrar que o cérebro humano interpreta a incerteza como uma ameaça física. A ambiguidade ativa os mesmos circuitos de estresse que um perigo concreto. E isso explica muito do que vemos hoje dentro das empresas.
A dificuldade de antecipar riscos, por exemplo, não está apenas na ausência de metodologias. Ferramentas como o premortem são amplamente conhecidas. Para Adam e Brené, o que falta, muitas vezes, é a habilidade de sustentar o desconforto de imaginar implicações negativas de campanhas, projetos ou produtos sem cair em negação ou simplificação. E isso é menos sobre segurança psicológica, no conceito clássico tão aprofundado por Amy Edmondson, e mais sobre repertório psicológico.
As pessoas não buscam necessariamente previsibilidade. Buscam a sensação de que têm algum grau de controle sobre o que pode acontecer. Quando isso não existe (algo cada vez mais frequente) o comportamento tende a se radicalizar. Em contextos sociais mais amplos, isso aparece na polarização. Em contextos organizacionais, aparece na rigidez, na resistência e na dificuldade de adaptação.
Desenvolver pensamento crítico nesse cenário, torna-se uma habilidade central. Não apenas para analisar informação, mas para sustentar a dúvida sem precisar resolvê-la imediatamente. De acordo com o podcast, práticas como o pre-bunking, que antecipam distorções e treinam o olhar para reconhecer manipulações, tornam-se cada vez mais relevantes.
Pensamento crítico, assim como pensamento sistêmico e capacidade antecipatória, não são apenas competências técnicas. São, acima de tudo, habilidades emocionais. Exigem que a pessoa consiga lidar com a dúvida, com a ambiguidade e com a possibilidade de erro sem precisar fechar rapidamente uma narrativa.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), na qual tenho me aprofundado recentemente, atua diretamente nesse ponto. De forma resumida, a ACT é uma abordagem da chamada terceira onda da Terapia Cognitivo-Comportamental, que entende a rigidez psicológica como uma das principais fontes de sofrimento mental. Seu objetivo é desenvolver a flexibilidade psicológica, reconhecendo que dor e desconforto fazem parte da experiência humana. Em vez de evitá-los, a proposta é cultivar uma postura mais compassiva e orientar a vida a partir daquilo que realmente importa.
Aceitar que a incerteza faz parte de uma existência plena exige clareza de valores e a capacidade de permanecer aderente a eles mesmo diante da dúvida.
Esse é um dos grandes desafios organizacionais atuais, especialmente para a liderança: criar contextos onde a tensão possa ser elaborada, discutida e integrada ao processo de decisão. Algo que, em um cenário cada vez mais atravessado pela inteligência artificial, exige escuta, intenção e, acima de tudo, humanidade.
*Simone Gasperin é sócia & head de Marketing e Growth das plataformas Ollo e BPool
Foto: Divulgação/modificada com IA








