Imagem da matéria Em época de eleições, é possível evitar que divergências políticas contaminem as equipes
18/08/2026 - 15h17 Gestão de Pessoas

Em época de eleições, é possível evitar que divergências políticas contaminem as equipes

Para especialista, líderes devem atuar para manter um ambiente em que haja diversidade de opiniões com respeito


Com o início da campanha eleitoral, as divergências políticas tendem a atravessar as portas das empresas. O desafio para lideranças e RHs não é eliminar as diferenças, mas impedir que elas se transformem em hostilidade, isolamento, pressão ou assédio. Neste ano, o tema ganhou uma nova dimensão jurídica: o TSE incluiu expressamente nas regras das Eleições 2026 a vedação à propaganda e ao assédio eleitoral no ambiente de trabalho público e privado.

 

O risco de a política interferir nas relações profissionais já aparece em pesquisas brasileiras. Levantamento do Indeed com mais de mil trabalhadores mostrou que 80% evitam discutir política com colegas ou líderes. Entre eles, 36% já haviam se sentido desconfortáveis ao expressar suas opiniões. Um estudo divulgado pela FGV EAESP em março deste ano, realizado com 283 servidores públicos de carreira, também identificou aumento dos conflitos interpessoais e de comportamentos prejudiciais ao trabalho durante o período eleitoral, sobretudo em ambientes com maior diversidade de opiniões políticas.

 

"Equipes diversas tendem a tomar decisões melhores quando conseguem aproveitar diferentes perspectivas. O desafio surge quando a divergência deixa de ser uma troca respeitosa de ideias e passa a afetar a confiança entre as pessoas. Nesse momento, aumenta a tendência de evitar conversas, formar grupos de afinidade, reduzir a colaboração e interpretar comportamentos sob uma lente ideológica", afirma Marcelo Egéa, presidente da IAF Brasil (International Association of Facilitators).

 

Segundo ele, é justamente nessa etapa, antes que o conflito se transforme em um problema formal, que a atuação da empresa faz diferença. “A maturidade de uma organização não se mede pela ausência de divergências, mas pela sua capacidade de transformar diferenças em diálogo e diálogo em colaboração”, diz.

 

Um dos maiores riscos, na visão do executivo, é a liderança assumir o papel de decidir quais opiniões podem ou não circular. O foco deve estar no comportamento e na qualidade das relações. "O papel da liderança não é arbitrar opiniões políticas nem controlar o pensamento das pessoas. Seu papel é cuidar da qualidade das relações de trabalho. Quando uma discussão passa a gerar constrangimento, intimidação ou hostilidade, o líder precisa atuar para restabelecer um ambiente de respeito", diz.

 

A necessidade de estabelecer essa fronteira fica ainda mais evidente diante do assédio eleitoral. Até 6 de agosto, o Ministério Público do Trabalho havia recebido 135 denúncias relacionadas às eleições de 2026. Entre as práticas citadas pelo órgão estão ameaças de demissão ou perda de função, promessa de benefícios, exigência de participação em atos de campanha, cobrança sobre o voto e constrangimentos relacionados a preferências políticas.

 

"Liberdade de expressão e respeito ao outro não são conceitos opostos; eles se complementam. Cada profissional tem direito às suas convicções, mas o ambiente de trabalho não pode ser utilizado para pressão, discriminação ou tentativa de influenciar escolhas individuais", ressalta Marcelo.

 

Proibir não elimina o conflito
Diante da polarização, simplesmente determinar que "política não se discute no trabalho" pode parecer a solução mais simples. Para  o CEO da IAF Brasil, porém, a estratégia tende a deslocar o problema em vez de enfrentá-lo. Proibir simplesmente, diz o executivo, costuma esconder o conflito, não resolvê-lo. “Quando não existem espaços adequados para diálogo, as tensões podem migrar para conversas paralelas, redes sociais ou pequenos grupos, dificultando ainda mais sua gestão.”

 

A alternativa é estabelecer previamente acordos de convivência, com princípios como respeito mútuo, escuta, ausência de ataques pessoais e preservação das relações profissionais. O RH também pode revisar códigos de conduta, reforçar canais seguros para relatos e preparar gestores para identificar situações em que uma divergência começa a comprometer o funcionamento da equipe.

 

É nesse ponto, defende Marcelo, que a facilitação profissional pode contribuir: em vez de decidir quem tem razão, o facilitador estrutura conversas difíceis para que diferentes posições possam ser apresentadas e ouvidas sem comprometer a relação entre os participantes. "A prevenção é muito mais eficaz do que a intervenção quando o conflito já se instalou. O objetivo não é fazer todos pensarem da mesma maneira, mas preservar a capacidade de continuar trabalhando juntos, mesmo quando existem diferenças profundas de opinião", conclui.

 

 

Foto: Shutterstock

 

 

Últimas notícias

Imagem da matéria O futuro das organizações passa pelo desenvolvimento humano
O futuro das organizações passa pelo desenvolvimento humano
Artigos - 03/09/2026 - 17h34
Investir nas pessoas é uma convicção e um forte direcionador da cultura, diz líder de RH da Eldorado Brasil
Ver MAIS
Imagem da matéria Líderes com alta capacidade adaptativa devem substituir perfis heroicos e centralizadores
Líderes com alta capacidade adaptativa devem substituir perfis heroicos e centralizadores
Liderança - 03/09/2026 - 16h31
O próximo ciclo de CEOs exigirá mais empatia e coragem para decidir sem ter respostas prontas
Ver MAIS
Imagem da matéria Quase todo mundo tem um lado sombrio no trabalho, mostra análise com 86 mil profissionais
Quase todo mundo tem um lado sombrio no trabalho, mostra análise com 86 mil profissionais
Comportamento - 02/09/2026 - 15h04
Apenas 0,11% dos profissionais não apresentam tendências de personalidade consideradas de risco moderado ou alto
Ver MAIS
Imagem da matéria Você vai ser substituído por alguém que sabe usar a IA - Os cinco pecados dessa frase
Você vai ser substituído por alguém que sabe usar a IA - Os cinco pecados dessa frase
Artigos - 02/09/2026 - 10h11
Para a jornalista e pesquisadora Adriele Marchesini, disseminar esse mantra é um erro estratégico grave
Ver MAIS

Notícias mais lidas

Imagem da matéria Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Recrutamento & Seleção - 26/02/2026 - 10h59
Chamada de A.R.A - Agente Robótica Aramis, solução fortalece a estratégia fashion tech da companhia
Ver MAIS
Imagem da matéria O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
Artigos - 27/04/2026 - 12h27
CEO do Andbank conta como a rotina de ciclismo, triathlons e maratonas contribui no seu desempenho como líder
Ver MAIS
Imagem da matéria Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Diversidade & Inclusão - 07/05/2026 - 10h43
Mas, ao se tornarem mães, mulheres ainda enfrentam dificuldades para manter o emprego, diz especialista
Ver MAIS
Imagem da matéria Deel apresenta as nove tendências de trabalho para 2026
Deel apresenta as nove tendências de trabalho para 2026
Radar - 12/12/2025 - 15h50
A volta da busca por estabilidade no emprego é uma delas, de acordo com dados da companhia
Ver MAIS
 Teste GRÁTIS por 7 dias