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19/08/2026 - 11h14 Artigos

Humanos e agentes trabalhando juntos – o desafio agora é liderar e governar a IA agêntica

Hoje, é essencial a capacidade humana de julgar, validar e decidir para não perder o controle sobre a tecnologia


Por Fabrício Dias*

 

Durante muito tempo, a liderança de tecnologia foi definida pela capacidade de manter sistemas estáveis, integrar aplicações, proteger a infraestrutura e sustentar eficiência operacional. Essa agenda continua importante. Mas já não explica sozinha o que está acontecendo agora.

 

Em 2026, a conversa deixou de ser apenas sobre software, cloud e automação tradicional. O centro da agenda passou a ser outro: como permitir que humanos e agentes de IA trabalhem juntos com segurança, contexto, supervisão e resultado. Nesse cenário, o papel das lideranças de tecnologia – CIOs, CTOs, CDOs, líderes de segurança, de arquitetura, de dados e de operações digitais – muda de forma importante. Elas deixam de gerenciar apenas sistemas e passam a gerenciar, cada vez mais, confiança em agentes.

 

Os dados de mercado mostram que essa virada já começou. O Gartner aponta que apenas 17% das organizações implantaram agentes de IA até agora, mas mais de 60% esperam fazê-lo nos próximos dois anos. Ao mesmo tempo, a consultoria alerta que, até 2027, 40% das empresas devem rebaixar ou descontinuar agentes autônomos por falhas de governança identificadas somente depois de incidentes em produção.

 

A Deloitte reforça esse diagnóstico. No State of AI in the Enterprise 2026, a consultoria mostra que apenas uma em cada cinco empresas tem um modelo maduro de governança para agentes autônomos. Ainda assim, a expectativa é de que, até 2027, 74% das organizações usem agentes ao menos de forma moderada, com 23% prevendo uso extensivo e 5% já enxergando agentes como parte central da operação. O mercado, portanto, não está mais discutindo se vai usar agentes. Está tentando descobrir como vai governá-los.

 

É aí que surge o verdadeiro desafio da liderança de tecnologia. Porque agentes não são apenas interfaces mais inteligentes. Eles acessam sistemas, manipulam contexto, interagem com dados, acionam fluxos, recomendam decisões e, em alguns casos, executam tarefas.

 

Essa é a razão pela qual a coordenação de agentes faz tanto sentido agora. Como uma camada de contenção, orquestração e governança capaz de permitir que agentes operem dentro de parâmetros claros. Em outras palavras: identidade, permissão, observabilidade, regras de escalonamento, supervisão humana, logs, rollback e responsabilidade definida. O problema de 2026 já não é mais colocar agentes para funcionar. É fazer isso sem perder o controle.

 

Há outro ponto fundamental nessa discussão: humanos e agentes não competem necessariamente pelo mesmo espaço.

O Microsoft Work Trend Index 2026 mostra que fatores organizacionais como cultura, apoio da liderança e práticas de talento explicam mais do que o dobro do impacto real da IA em comparação com fatores individuais. O mesmo estudo mostra que 86% dos usuários tratam a saída da IA como ponto de partida, não como resposta final; 50% destacam controle de qualidade como habilidade humana essencial; e 46% apontam pensamento crítico como competência central. 

 

Em outras palavras: quanto mais os agentes executam, mais importante fica a capacidade humana de julgar, validar e decidir.

 

Isso amplia a responsabilidade da liderança de tecnologia. Não se trata apenas de escolher modelos ou aprovar ferramentas. É sobre criar um ambiente em que o trabalho entre pessoas e agentes seja inteligível, auditável, seguro e útil para o negócio. 

 

Isso envolve definir níveis de autonomia, escopos de acesso, critérios de validação, políticas diferentes para agentes que observam, recomendam ou agem, e uma arquitetura que preserve accountability sem sufocar velocidade.

 

Humanos e agentes trabalhando juntos também afeta a dinâmica entre áreas.

O líder de tecnologia de 2026 já não consegue tratar agentes como uma agenda isolada de TI. Ele precisa articular dados, segurança, arquitetura, compliance, operação, produto e áreas de negócio em torno de um mesmo princípio: permitir ganho de eficiência e inteligência sem abrir mão de governança. Isso exige menos visão de ferramenta e mais visão de sistema operacional do negócio.

 

No fundo, o que está em jogo é uma mudança de paradigma. As lideranças de tecnologia já não administram apenas ambientes determinísticos. Passam a administrar uma convivência entre pessoas e entidades autônomas que aprendem, sugerem, executam e interagem com processos críticos. E essa convivência só escala quando existe uma base clara de confiança operacional.

 

Por isso, o grande desafio de 2026 é a governança de agentes. Não é apenas automação. É orquestração com responsabilidade. Não é só colocar tecnologia em produção. É construir um ambiente em que humanos e agentes possam trabalhar juntos sem que a empresa perca controle e escala.

 

*Fabrício Dias é diretor de Produto e Tecnologia da Lecom Tecnologia  

 

 

Foto: Divulgação/Lecom

 

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