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23/06/2026 - 10h01 Artigos

5 insights para entender o que já começou a mudar na gestão de pessoas

Especialista em aprendizagem fala do impacto da IA no modelo mental vigente e as mudanças necessárias mais urgentes


Por Alessandra Lotufo*

 

A forma de conduzir a gestão de pessoas vem mudando constantemente nos últimos anos, mas não da forma como costumamos nomear ou organizar essas transformações. Não se trata de uma grande ruptura anunciada, e sim de deslocamentos mais sutis, que já começaram a impactar a forma como trabalhamos, decidimos e lideramos.

 

Algumas dessas mudanças, ainda passam despercebidas porque não aparecem como tendência estruturada ou discurso consolidado. Mas já estão pressionando o dia a dia das organizações, exigindo novas formas de pensar o trabalho, a tecnologia e o comportamento humano.

 

Neste artigo, faço um recorte de cinco insights, que estão ecoando na minha cabeça. Entre tantos, escolhi os que começam a cobrar a conta mais cedo do que parece. Confira:

 

1 – O analfabetismo mono-tool

Ainda estamos ensinando gente a usar ferramentas como se o problema fosse interface. Como escrever melhor prompt para "falar com a IA". Mas essa conversa já nasceu velha, porque parte da premissa de que o gargalo da IA está no uso de ferramentas. Não está.

 

Fazer está ficando cada vez mais barato. Executar já não é diferencial. Agora, o problema é orquestrar. Empresas continuam ruins em desenhar fluxos, integrar lógicas, estruturar decisões. E, diante disso, respondem como sempre responderam: mais ferramentas, mais camada, mais complexidade. O resultado? Ilhas. Sistemas que não conversam e mais dificuldade de integração.

 

Antes, vencia quem executava melhor. Agora que a execução virou commodity, ganha quem consegue desenhar como o trabalho deveria funcionar e traduzir isso para a máquina, ou seja: precisamos aprender a transformar cultura em sistema operacional.

 

Operar com uma única ferramenta virou o novo analfabetismo, porque o profissional relevante precisa orquestrar sistemas de IA para resolver problemas inteiros, e não tarefas isoladas. No fim das contas, estamos sendo forçados a fazer algo que evitamos por anos: pensar o trabalho de forma sistêmica.

 

2 – O bloqueio da IA é cognitivo

Existe uma crença confortável nas empresas: com o processo certo, a ferramenta certa, o framework certo, tudo encaixa. Não encaixa, porque a estrutura não pensa. Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para entender por que tantos projetos de IA emperram. As empresas estão tentando colocar IA em cima de processos, automatizar fluxos e escalar operações, mas esquecem que a IA não corrige raciocínio mal estruturado.

 

O problema aparece no momento mais básico: explicar o próprio raciocínio. Tornar explícito o que antes era intuitivo. Por isso, o bloqueio da IA não é técnico e sim cognitivo. A maioria das pessoas sabe fazer, mas não sabe explicar como faz. Enquanto isso não mudar, a IA não escala, pois só conseguimos delegar para a máquina aquilo que conseguimos tornar suficientemente claro.

 

3 – Cultura ruim não melhora com tecnologia

Existe uma expectativa quase mágica de que a IA vai consertar ineficiência organizacional. Mas ela só acelera o que já existe.

 

Se a base da organização é frágil, com confiança baixa e responsabilidade difusa, a IA não reorganiza esse sistema, ela só amplifica a incoerência. Ambientes onde as pessoas jogam para agradar chefe, esconder erro ou disputar poder não sobrevivem bem a esse tipo de aceleração. Quando o ego entra na equação, a decisão deixa de ser técnica e vira política. Se o jogo já é de aparência, ela otimiza a aparência, não o resultado.

 

O mesmo vale para culturas competitivas tóxicas, normalizadas por lideranças que sustentam sabotagem, retenção de informação e guerra entre pares. Esses ambientes não surgem por acaso. Eles são produzidos, tolerados e premiados. Não existe boa decisão em estado de ameaça contínua.

 

E tem mais: a IA exige exatamente o oposto do que muitas culturas foram treinadas a valorizar. Menos controle, certeza e hierarquia; mais teste, iteração e distribuição. Quanto mais bem-sucedida a organização foi no passado, maior tende a ser essa rigidez. O sucesso que construiu a cultura é, muitas vezes, o mesmo que hoje limita sua capacidade de mudar.

 

4 – O middle management virou o maior freio da IA

Durante muito tempo, a média liderança foi celebrada como a grande engrenagem da execução. E foi. Agora, com a execução sendo automatizada, esse mesmo lugar pode se transformar no principal freio da mudança.

 

O valor está migrando para o que não escala fácil, que vem de leitura de contexto, curadoria, senso de direção. Quando conteúdo, produção e operação se tornam abundantes e tecnicamente "bons o suficiente", o diferencial não é mais fazer mais. É escolher melhor.

 

Isso muda o papel do gestor intermediário. Controle perde valor para interpretação. Quem continua operando como supervisor de tarefa começa a ficar para trás. Quem entende de contexto, organiza informação e dá sentido passa a ser central. 

 

A média liderança se torna freio quando continua tentando ser superoperadora num mundo que já não precisa mais de superoperadores. O salto agora está em sair da execução centralizada e ir para a orquestração. Menos comando sobre tarefa e mais desenho de contexto e direção.

 

5– Curiosidade deixou de ser "soft"

Sem curiosidade, a IA vira Word com esteroide. Esse talvez seja um dos deslocamentos mais importantes do trabalho contemporâneo: soft skill deixou de ser camada complementar. Em muitos contextos, virou infraestrutura de hard skill.

A IA muda completamente a dinâmica do trabalho. Antes, pensávamos sozinhos para entregar algo pronto. Agora, pensamos, testamos e construímos ao vivo. E isso expõe, porque temos medo de mostrar raciocínio inacabado.

 

A IA aumentou a exposição do pensamento. O problema é que as empresas ainda operam no modelo antigo, que espera resposta limpa, entrega final e narrativa fechada, só que, hoje, precisamos do oposto: processo aberto, tentativa, imperfeição. O que a IA exige como comportamento é o que a cultura muitas vezes pune. As pessoas não exploram, não testam, não aprendem e não escalam porque o custo já não é apenas técnico. É político. Mostrar um uso avançado de IA expõe velocidade, lógica e redistribui poder. A resistência à IA, em muitos casos, é a proteção da identidade intelectual.

 

Por isso, curiosidade virou competência técnica, porque é condição concreta de exploração. Quem não pode se expor não explora e quem não explora não aprende nem escala. A segurança psicológica agora inclui a exposição cognitiva. 

 

Empresas dizem que aceitam erros. Mas seguem rejeitando pensamento inacabado. E isso é incompatível com a velocidade de aprendizagem que a IA exige.

 

BÔNUS – A PRÓXIMA VANTAGEM COMPETITIVA É BIOLÓGICA

A qualidade das relações humanas ainda é tratada como um tema leve, quase decorativo, associado a bem-estar, clima ou pertencimento. Mas relacionamento não é só psicológico. É fisiológico.

 

Vínculos fortes funcionam como reguladores de estresse, estabilizadores cognitivos e amortecedores de desgaste. Sem isso, o corpo interpreta o isolamento como ameaça e passa a operar em estado de alerta. A consequência é mais estresse, mais desgaste sistêmico, menos regulação emocional, menos foco e clareza.

 

A ausência de conexão consistente virou problema estrutural. O dano vem de uma vida sem base relacional estável. Isso ajuda a explicar por que a próxima vantagem competitiva é biológica. Precisamos ter o sistema nervoso minimamente regulado para sustentar a pressão contínua. E, num mundo mais exigente cognitivamente, isso pesa ainda mais. Performance não é só mental. É fisiológica.

 

O QUE FICOU NO AR 

A inteligência artificial expõe a fragilidade dos nossos modelos mentais, escancara culturas que não se sustentam e tensiona limites biológicos que já vinham sendo desafiados.

 

A tecnologia avançou e o humano agora precisa acompanhar. A IA redefine o que passa a ser exigido a partir de agora. Quem entende que o jogo é cognitivo, cultural e biológico, começa a operar em outro nível.

 

*Alessandra Lotufo é especialista em aprendizagem e sócia e managing director da Afferolab

 

 

Foto: Divulgação/Afferolab

 

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