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27/03/2026 - 00h00 Artigos

PARA! EU NÃO CONSIGO TE OUVIR!


Por André Felicíssimo

O que você faz fala tão alto que não consigo ouvir o que você diz?

 

Já ouviram essa frase do filósofo Ralph Waldo Emerson? Ela resume, para mim, a essência da evolução da relação entre a liderança e Recursos Humanos. O RH deixou de ser visto apenas como uma área administrativa, para ocupar um papel essencial na estratégia de crescimento das organizações. Hoje, vejo esse setor como um parceiro da liderança na construção do futuro. Porque crescimento sustentável começa pelas pessoas.

 

Desenvolver talentos e construir um ambiente saudável não são conse-quências do sucesso. São a base dele. E é exatamente aí que quero conectar o papel da liderança.

 

Vivo em uma realidade em que criar cultura, inspirar pessoas e fortalecer comportamentos alinhados aos valores da companhia faz parte do escopo de quem lidera. Quem me conhece já deve ter me ouvido falar do conceito de liderança magnética, na qual o líder cria o ambiente em que cada um queira dar o seu melhor. Isso se torna ainda mais verdadeiro quando acreditamos na filosofia de crescer de dentro. Algo que vivo todos os dias.

 

Nesse contexto, o RH estrutura, direciona e viabiliza essa jornada. Mas não caminha sozinho.

 

Vejo o RH com três grandes responsabilidades: cultura, talento e custo.

 

O custo – ou os “recursos” – representa a base histórica da área: gestão de pessoas, salários, benefícios, etc. É um pilar que precisa, sim, da atenção da liderança. Costumo dedicar cerca de 25% do meu tempo nessas discussões. Porém, falta a parte “Humanos” dos “Recursos”, que engloba cultura e talento. E é quando falamos desse lado, que está o trabalho mais intenso, transformador e genuinamente compartilhado.

 

Cultura como condutora do negócio

Costumo lembrar de uma frase de Peter Drucker, “a cultura come a estratégia no café da manhã”. Se a cultura é fraca, nenhuma estratégia se sustenta por muito tempo. A cultura é o que nutre o time, gera conexão, e faz as pessoas quererem entregar o seu melhor.

 

É por meio da dela que reforçamos a importância de fazer sempre a coisa certa. Que construímos ambientes saudáveis, seguros emocionalmente, e com igualdade e inclusão.

 

Aqui existe um ponto-chave da liderança: congruência. Dizer o que pensa e fazer o que diz. O que dizemos precisa aparecer no comportamento diário, nas atitudes em cada decisão tomada. Especialmente nos momentos difíceis. O RH é o Grilo Falante que tem a coragem de dizer pro líder se está saindo da rota. Por isso repito: o que você faz, fala tão alto que não consigo ouvir o que você diz. Congruência!

 

Desenvolvimento de talentos exige presença e processo

Desenvolver talentos requer disciplina, constância, compromisso e presença real.

 

Por mais que os líderes tenham boa vontade e dedicação, é o RH que conduz. Coordena as revisões de talentos, garante a meritocracia, estabelece critérios, cobra os líderes, chama para responsabilidade.

 

Conversas estruturadas sobre carreira são uma parte importante. Faço questão de reservar o meu tempo para esses encontros individuais. São momentos de escuta sobre expectativas, interesses e possibilidades. Quando conseguimos alinhar os objetivos da pessoa com os da empresa, criamos engajamento de verdade. Depois dessas conversas, o RH se torna um parceiro fundamental para transformar reflexão em ação. Juntos, estruturamos planos de desenvolvimento, olhamos para talentos com potencial de crescimento e garantimos que cada pessoa tenha clareza sobre seu caminho.

 

É importante lembrar: nem todos os talentos precisam da mesma coisa. Tratá-los de forma diferenciada é parte da responsabilidade de liderar.

 

Escuta ativa como suporte à liderança

Quem lidera nem sempre consegue captar tudo o que as pessoas pensam sobre decisões, mudanças e direcionamentos. Cada vez que somos promovidos, ficamos mais distantes das conversas de corredor. Mais uma vez, o RH exerce um papel essencial.

 

Quando pratica uma escuta estratégica, baseada em confiança e acolhimento, ele cria um espaço seguro. Ferramentas como feedbacks 360º e upward feedback complementam a visão da liderança, trazendo dados, insights e diferentes perspectivas.

 

Vejo cada profissional de RH como alguém que inspira confiança, transparência e sinceridade. Isso cria um ambiente onde as pessoas se sentem confortáveis para falar sobre como as mensagens da liderança estão sendo recebidas.

 

Esses feedbacks me permitem avaliar a liderança de forma mais ampla, além das interações diretas e considerando contextos diferentes. O que torna a análise mais justa, e a evolução, possível.

 

Responsabilidade compartilhada gera impacto duradouro

Gosto de parafrasear Ben Parker (personagem das histórias do Homem-Aranha) dizendo que “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. E uma das maiores responsabilidades de quem lidera é desenvolver pessoas.

 

Nenhuma estratégia sobrevive sem líderes capazes de desenvolver talentos, assim como nenhuma estratégia se sustenta sem uma área de Recursos Humanos que dê suporte a esse trabalho.

 

Se trabalhamos assim, não importa se você não escuta o que digo, pois aquilo que faço já disse tudo.

André Felicíssimo é presidente da P&G Brasil

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