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13/03/2026 - 12h37 Artigos

As empresas estão prontas para as mudanças da NR-1?

Para Renan Soloaga, saúde mental ainda é um tema cercado de desinformação, tabu e imaturidade social


Por Renan Soloaga*

 

Dados recentes do Ministério da Previdência Social mostram que a saúde mental se tornou um dos principais desafios do mercado de trabalho brasileiro. Em 2025, o país registrou mais de 500 mil afastamentos, número superior aos 472 mil casos do ano anterior, quando os números já eram alarmantes. Além do impacto humano, o crescimento desses afastamentos gera custos bilionários: o efeito estimado para o INSS já chega a R$3,5 bilhões.

 

Essa discussão reaquece um assunto que está em alta: as alterações da Norma Reguladora 1 (NR-1). Esta regra é responsável por estabelecer diretrizes para as práticas de saúde e segurança do trabalho das companhias, sendo determinante para o gerenciamento dos riscos ocupacionais, ou seja, os riscos pelos quais os trabalhadores estão expostos em suas respectivas funções.

 

As mudanças, que entram em vigor em 25 de maio, acrescentam os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho (FRPRT) dentro da categoria ocupacional, que já inclui os acidentes de trabalho. A NR-1 entende, portanto, que é necessário criar uma cultura empresarial que dê a devida atenção à saúde mental dos colaboradores.

 

Cargas de trabalho excessivas e condições de trabalho inadequadas são algumas características negativas que podem gerar multas às companhias.

 

Fato é que com a proximidade do prazo, a maioria dos negócios ainda não está preparada para lidar com as mudanças. Isso não se limita às PMEs e startups. O despreparo é generalizado e reflete um desafio mais amplo: a saúde mental ainda é um tema cercado por desinformação, tabus e falta de maturidade social. Naturalmente, esse cenário se replica no ambiente corporativo.

 

A atualização da norma expõe fragilidades na forma como as relações de trabalho são estruturadas, e um dos principais pontos de atenção é a complexidade técnica do tema. Ainda não há uma definição clara sobre quem está legalmente habilitado a realizar o mapeamento e o acompanhamento dos riscos psicossociais, abrindo espaço para interpretações equivocadas, uso inadequado de ferramentas e até práticas pouco responsáveis.

 

Outro desafio relevante é a própria dinâmica da coleta de informações. Avaliar riscos psicossociais exige confiança. Quando o colaborador não se sente seguro para responder de forma honesta a um profissional que representa a empresa, o diagnóstico perde valor. Sem dados confiáveis, qualquer plano de ação se torna frágil, independentemente do tamanho da companhia.

 

Necessidade de qualificação e digitalização

Diante desse cenário, as medidas mais urgentes passam pela capacitação. Antes de buscar soluções rápidas ou ferramentas milagrosas, as empresas precisam investir na formação dos profissionais de saúde e segurança do trabalho (SST) ou recorrer a especialistas que compreendam as metodologias adequadas para cada tipo de ambiente.

 

Não existe um modelo único que funcione para todos. Cada organização tem sua cultura, seus riscos e suas particularidades.

 

É comum observar empresas em busca de uma resposta pronta, como um relatório, que “resolva” a nova exigência da NR-1. Porém, a gestão da saúde mental no trabalho não se resume a checklists. Estamos falando de um processo contínuo, que exige metodologia, definição de indicadores e planos de ação consistentes. Ferramentas podem apoiar esse trabalho, mas não substituem o conhecimento técnico nem a responsabilidade de quem conduz o processo.

 

No setor de SST, as reações à mudança variam. Alguns profissionais enxergam a atualização da norma como uma oportunidade de expansão e especialização. Outros, como um fator de complexidade em um segmento que já está sobrecarregado e precisa amadurecer.

 

Nesse contexto, a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, tem um papel importante, mas que precisa ser tratado com cautela.

 

A IA pode aumentar a eficiência de tarefas operacionais e apoiar análises, mas não deve assumir decisões que envolvem riscos à saúde e à vida das pessoas. Saúde e segurança do trabalho é uma área essencialmente humana e ética.

 

As mudanças na NR-1 representam, acima de tudo, um empurrão necessário para que empresas encarem a saúde mental no trabalho com mais seriedade. Para startups e PMEs, especificamente, este ano e os próximos devem ser encarados como uma oportunidade de estruturar relações de trabalho mais saudáveis, sustentáveis e alinhadas às novas exigências do mercado.

 

*Renan Soloaga é CEO e fundador da Indexmed empresa de gestão digital de saúde e segurança do trabalho

 

 

 

Foto: Divulgação/Indexmed

 

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