Empresas fortes não fogem do caos
Para David Braga, a governança do futuro começa por uma cultura organizacional afeita ao conceito de antifrágil
Por David Braga*
Por muito tempo, governança organizacional significou controle e previsibilidade. Cultura, quando aparecia, ficava relegada a um plano abstrato algo intangível, difícil de medir e, muitas vezes, fácil de ignorar. Esse modelo ficou para trás. Em um mundo atravessado por crises sanitárias, avanços tecnológicos acelerados, tensões geopolíticas, pressão por ESG e mudanças profundas nas relações de trabalho, ficou evidente que resistir já não é suficiente. As organizações que prosperam são aquelas capazes de aprender rápido, se adaptar e sair fortalecidas dos choques.
É nesse cenário que o conceito de antifrágil, formulado pelo ensaísta e pensador do risco Nassim Nicholas Taleb, ganha relevância no debate sobre cultura organizacional. Diferente da resiliência, que se limita a suportar impactos e voltar ao estado anterior, a antifragilidade descreve sistemas que evoluem a partir do choque e se fortalecem em ambientes instáveis. No contexto empresarial, isso significa abandonar a fantasia do controle absoluto e reconhecer que erro, tensão e incerteza não são desvios do caminho, mas parte constitutiva dele. Quando bem trabalhados, tornam-se matéria-prima para inovação, amadurecimento e decisões melhores.
Na prática, essa virada começa por uma constatação incômoda: cultura não é discurso institucional nem frase de efeito. Ela se revela naquilo que se repete no cotidiano. Essas atitudes recorrentes são resultado de escolhas concretas decisões de liderança, incentivos, rituais, formas de reconhecimento e, principalmente, do que se tolera ou se corrige no dia a dia. Organizações maduras mantêm valores inegociáveis, mas adaptam continuamente a forma de colocá-los em prática. Ética, respeito, segurança e integridade permanecem; processos, modelos de trabalho, tecnologias e estruturas, não.
A liderança exerce papel central nesse processo. Ambientes frágeis tendem a produzir líderes defensivos: escondem problemas, evitam conflitos e punem o erro. Já culturas mais robustas são construídas por lideranças que estimulam o debate, criam segurança psicológica e tratam falhas como insumos para aprendizado sem abrir mão da responsabilidade. Assim, governança deixa de ser apenas um sistema de fiscalização e passa a orientar comportamentos, decisões e prioridades estratégicas. A gestão de pessoas fecha esse ciclo. Não há cultura forte quando os sistemas de avaliação, metas, remuneração e reconhecimento premiam exclusivamente resultados de curto prazo, mesmo que isso implique desgaste humano, riscos operacionais ou atalhos éticos. Organizações verdadeiramente preparadas para a instabilidade sabem equilibrar desempenho e sustentabilidade, curto e longo prazo, resultado e saúde organizacional. Antifragilidade, afinal, não é sobre suportar o caos é sobre aprender com ele e crescer a partir daí.
Nesse contexto, Conselhos de Administração e lideranças executivas tornam-se guardiões da antifragilidade cultural. Cabe a eles colocarem a cultura no centro da estratégia, como critério efetivo de decisão, sucessão, incentivos e gestão de riscos. À liderança executiva compete transformar essa diretriz em prática cotidiana: dar o exemplo, sustentar conversas difíceis, preservar a segurança psicológica e equilibrar performance com responsabilidade. Quando há alinhamento, a cultura deixa de ser vulnerável às crises e passa a impulsionar aprendizado e crescimento, mesmo em cenários incertos; não é mesmo?
*David Braga é CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search e presidente da ABRH-MG
Foto: Ton Nettos








