Quando o jogo extrapola o lazer e interfere no trabalho: o papel da liderança diante das bets
Tratar as apostas como uma questão apenas de saúde mental é olhar o problema pelo retrovisor
Por Paula Warick e Fábio Appolinário*
As apostas esportivas e digitais, as populares bets, deixaram de ser apenas entretenimento para se tornarem um novo e silencioso risco dentro das organizações. Com o acesso fácil a plataformas online e o apelo constante de influenciadores e campanhas de marketing, um número crescente de colaboradores tem comprometido parte relevante de sua renda em jogos. O impacto vai muito além da vida pessoal: afeta a produtividade, o engajamento e o clima organizacional.
O problema raramente aparece nas planilhas de RH. Ele se manifesta em comportamentos sutis – atrasos, distração, irritabilidade, queda de desempenho, pedidos de adiantamento salarial. São sinais que podem ter múltiplas causas, mas todos apontam para algo essencial: alguém está em sofrimento. E é nesse ponto que o papel da liderança se torna decisivo.
Liderar também é cuidar
Não cabe ao líder ser terapeuta ou conselheiro financeiro, mas criar um ambiente de confiança, onde as pessoas possam expor vulnerabilidades sem medo de julgamento. A liderança responsável é aquela que age como radar cultural — percebe os sinais precoces, abre espaço para conversas difíceis e atua com empatia e ética.
Mais do que reagir às consequências das bets, é preciso atuar nas causas. Cultura e clima são fatores determinantes: empresas com ambientes de medo, metas desumanas ou ausência de diálogo tendem a esconder o problema. Já aquelas que cultivam segurança psicológica e confiança favorecem o pedido de ajuda e reduzem riscos.
Um olhar integral
O desafio das bets não é apenas psicológico ou financeiro, ele é sistêmico. Utilizando a Teoria Integral de Ken Wilber, é possível enxergar quatro dimensões interligadas desse fenômeno:
• Individual interior (emoções, crenças, gatilhos),
• Individual exterior (comportamentos observáveis e métricas de desempenho),
• Coletivo interior (a cultura e os valores compartilhados) e
• Coletivo exterior (as políticas, sistemas e regulações).
Sem olhar para todas essas dimensões, qualquer solução será parcial. É por isso que a FDC propõe uma abordagem multidimensional, combinando cultura, liderança, estrutura e educação.
Liderança responsável: do radar à ação
Inspirada em modelos como a Liderança Transformacional e Servidora, a Liderança Responsável amplia o escopo da gestão contemporânea. Ela conecta resultados a propósito, decisões a ética e desempenho a cuidado. O líder responsável entende que proteger pessoas é também proteger negócios — e que a confiança é um ativo estratégico, não um tema “soft”.
Nas empresas, isso se traduz em ações práticas:
• Treinar líderes para reconhecer sinais de sofrimento,
• Fortalecer a segurança psicológica e o diálogo aberto,
• Criar protocolos de apoio e canais de escuta e
• Integrar saúde mental, educação financeira e pensamento crítico em políticas Permanentes.
Da prevenção à vantagem competitiva
Tratar as bets como uma questão apenas de saúde mental é olhar o problema pelo retrovisor. O verdadeiro diferencial está na prevenção, no fortalecimento do tecido cultural e na formação de lideranças preparadas para lidar com os dilemas humanos do trabalho contemporâneo.
Em um cenário empresarial cada vez mais incerto, liderar com compaixão e inteligência integral não é apenas uma escolha ética, é uma vantagem competitiva sustentável.
Afinal, empresas saudáveis são feitas de pessoas inteiras
*Paula Warick e Fábio Appolinário são, respectivamente, gerente de Negócios e Soluções e professor associado da Fundação Dom Cabral
Fotos: Divulgação








