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04/09/2024 - 17h20 Artigos

As lideranças ainda dão conta de inovar?

Por mais que estejamos imersos em inovações, ainda somos engolidos pelas ondas, avalia especialista


 

 

Por Guilherme Massa*

 

 

Há mais de uma década, vivemos um boom em torno do tema inovação. Ele eclodiu junto com alguns avanços tecnológicos, especialmente os produtos digitais, que permitiram a criação de startups unicórnio de alta escala, como Uber, Airbnb e iFood. Mais recentemente, a inteligência artificial generativa deu novo impulso ao assunto. Com tanta evolução, pode parecer que as lideranças das empresas estão atentas e preparadas para inovar, certo? Infelizmente, não é bem assim.

 

Uma pesquisa recente da consultoria BCG verificou uma contradição: enquanto líderes afirmam que a inovação cresceu em prioridade estratégica, o nível de prontidão das organizações para inovar caiu de 20% em 2021 para somente 3% em 2024. Ou seja, muito se fala, pouco se pratica. A falta de cultura, entendimento sobre as tendências e um ecossistema são os três pontos que mais decaíram ao analisar as empresas. Fica claro, portanto, que por mais que estejamos imersos em inovações, ainda estamos sendo engolidos pelas ondas em vez de surfá-las.

 

Mas, afinal, as grandes companhias ainda dão conta de inovar? A resposta começa pela compreensão de uma divergência entre as mentalidades de quem inova mais, os empreendedores, e os executivos, que não estão tão focados nessa pauta. Enquanto os primeiros são orientados a uma visão de transformação de longo prazo, os outros são estimulados com bônus por atingir as metas de curto prazo. Caímos aqui num dilema de incentivos e de visão estratégica: se os acionistas desenvolverem uma cabeça mais "startupeira", talvez vejamos seus times propondo mais disrupturas e valor ao mercado.

 

O segundo elemento é a caixa de ferramentas para inovar nas empresas. Por mais que muitas já tenham experimentado algumas delas, como intraempreendedorismo, hackathons abertos ou inovação aberta com startups, o fato é que a maioria se aventurou sem experiência e colheu poucos resultados devido à falta de paciência corporativa, aliada ao ponto anterior sobre falta de visão de transformação. É comum vermos líderes falando da busca por "disruptar” o mercado em entrevistas e eventos, mas lhes falta entendimento de que, hoje, é preciso gente dedicada e capacitada, com espaço e recursos para propor a transformação. Como exemplo positivo, a cura do Mal de Alzheimer pode vir nos próximos anos justamente de um trabalho conjunto entre uma gigante farmacêutica e uma startup suíça.

 

O último ponto é entender como escalar na organização essa visão e capacidade de inovação. Muitas delas mal têm times focados em inovação ou até descontinuaram os seus para focar no "core business". É o tipo de traço de corporações que não sabem lidar com todo o arsenal diversificado que existe hoje para inovar, muito menos vão conseguir transformar seus colaboradores e líderes em verdadeiros inovadores. Em tempos de Olimpíadas, seria como acreditar que um atleta de alto rendimento chegará ao ouro Olímpico sozinho, quando, na realidade, ele se apoia em muitos profissionais especializados. É isso que é necessário nas companhias: equipes que possam organizar as práticas, zelar pelo portfólio de projetos, estimular uma nova visão frente a tendências e treinar mais pessoas. Sim, inovação é possível de ser aprendida, e é uma nova competência exigida de profissionais do presente e do futuro.

 

Conforme diz o CEO da Microsoft, Satya Nadella, "o mercado não respeita a tradição, apenas a inovação". Seja criando projetos internamente com corporate venture building, investindo com corporate venture capital, criando programas de inovação com startups, organizando hackathons e gincanas de tecnologia, seja com outras iniciativas, as empresas agora precisam de consistência ao inovar para, em seguida, conseguir fazer tudo isso ao mesmo tempo.

 

*Guilherme Massa é cofundador da rede de inovação Liga Ventures

 

 

 

Foto: Divulgação/Liga Ventures

 

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