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13/05/2024 - 11h27 Artigos

E se este for o meu último artigo?

Como lidar com a nossa finitude é o foco de Marcelo Madarász em sua coluna


 

 

Por Marcelo Madarász*

 

Estou escrevendo este artigo no dia 12 de maio, data que está sendo comemorado o Dia das Mães e na qual não só as empresas eventualmente fazem peças publicitárias sobre a data, mas em que as redes sociais se transformam num cenário de amor entre filhos e mães. A data, se para muitos é dia de alegria, encontros e celebrações, para outros é de saudades, luto, tristeza ou mesmo de arrependimentos. Talvez muita coisa possa ser feita para que, apesar das saudades e da dor da ausência física, o sentimento que tome conta do dia seja de reverência e muita gratidão.

 

Antes que as pessoas possam pensar que este é meu último artigo para a Gestão RH, gostaria de esclarecer que espero que não, mas usei o título porque, há muito tempo, muitos anos mesmo, eu estava na cidade de Avaré, no interior do de São Paulo, junto com minha amada mãe participando de um workshop de um final de semana, conduzido por uma psicóloga muito hábil e competente chamada Rita. O tema era Propósito de Vida e o que cada um estava fazendo com a sua “cota de tempo”. No segundo e último dia, tivemos uma dinâmica que foi muito forte e demandou muitas caixinhas de lenço de papel. O tema era: E se hoje fosse o último dia de sua vida?

 

Muitos ficaram impactados porque nunca haviam pensado sobre isso, uma vez que falar da morte é um tabu para a grande maioria de nós. À medida que a dinâmica prosseguia, as pessoas respondiam o que fariam nesse último dia. Muitos procurariam pessoas para pedir perdão ou para perdoar, outras ligariam ou tentariam encontrar pessoalmente algumas pessoas apenas para dizer: “eu te amo. Me desculpe se estive tão distante nos últimos tempos”. Foi um exercício muito forte, que mexeu profundamente com os participantes e, ao final, houve mais uma reflexão: “o que te garante que hoje não é realmente o último dia desta sua vida? O que você está então esperando para fazer o que acabou de nos dizer que faria?”

 

O mundo contemporâneo está às margens de uma situação no mínimo muito desafiadora. Após uma pandemia, vivemos todos os dias uma guerra de narrativas, com sequestros ideológicos e ninguém sabe mais no que ou em quem acreditar. Além das polêmicas, dos desafios inerentes a algo tão grave, você passa a desconfiar de tudo e de todos, pois o pano de fundo é uma enorme incerteza e a perda da credibilidade de pessoas, instituições, partidos políticos, líderes mundiais, nações.

 

Agora, no Brasil, além de todas as enormes incertezas (não somos os únicos), estamos enfrentando uma tragédia no Rio Grande do Sul de proporções absolutamente assustadoras. Quem tem parentes, familiares, conhecidos ou operações no estado, sabe com maior clareza do que estou falando. Mais uma vez, somos colocados frente a frente com um de nossos maiores temores: o medo de nossa própria finitude e a enorme impotência para lidar com a situação.

 

Diante da constatação de que é pouco ou praticamente nada o que podemos fazer para impedir uma catástrofe como essa, muitos se mobilizam como podem para tentar remediar, minimizar, ajudar de alguma forma. Vemos emergindo a luz e a sombra, o melhor e o pior do ser humano e, mais uma vez, estamos diante de escolhas de como vamos nos portar, se vibraremos em faixas superiores, apesar de muitos e do que vemos, ou se vamos sucumbir e nos deixarmos derrotar, sentindo que a sombra venceu.

 

Todas essas reflexões nos envolvem tanto em nossa dimensão pessoal quanto no exercício de nosso ofício, principalmente os gestores de pessoas, o time de Recursos Humanos e mais ainda os profissionais que, como eu e muitos de vocês, estão fazendo parte dos comitês de crise, de emergência, de contingência ou o nome que tenha sido empregado para tentarmos dar conta dessa parcela do sofrimento humano que pode devastar pessoas e impactar os negócios e a economia.

 

Sem ser profetas do apocalipse, mais do que nunca é preciso mantermos a calma, a serenidade, a lucidez e tirarmos forças para ajudarmos o próximo. Como lembrou Viktor Frankl, no livro Em Busca de Sentido, quem tem um “porquê”, enfrenta qualquer “como” (resgatando Nietzche).

 

Cada um deve buscar respostas, forças e a compreensão para lidar com essa situação e não só fazer a travessia, mas ajudar outros a fazê-la onde mais sentido houver.

 

Nessa tentativa, tenho procurado expandir a minha consciência e ajudar pessoas em reflexões sobre como lidar com a angústia, sentimento de impotência, medos e, mais uma vez, para aumentarmos a conexão com a vida, vejo inspiração na forma como pessoas lidaram com a morte.

 

No livro Antes de Partir, Bronnie Ware nos ensina que ser quem somos exige muita coragem; que o valor verdadeiro não está no que possuímos; que o que importa é como vivemos as nossas vidas; que podemos fazer alguma diferença positiva; que a vida não nos deve nada, nós é que devemos a nós mesmos e que a gratidão é a chave para reconhecer e curtir a felicidade agora. Mais uma vez: que não precisemos de uma doença grave nos visitando ou uma calamidade pública como a que nossos amigos gaúchos estão vivendo para refletirmos sobre nossas vidas, o que estamos fazendo e que história queremos escrever e deixar registrada sobre nós. Muita luz para todos nós!

 

PS: Toda nossa solidariedade, vibrações de amor e luz para todos os impactados pela tragédia no Rio Grande do Sul.

 

 

*Marcelo Madarász é diretor de RH para América Latina da Parker Hannifin

 

 

Foto: Marcus Suguio

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