Incentivo de longo prazo ganha espaço na remuneração de conselheiros, mas exige regras específicas
Não dá para reproduzir no board o modelo aplicado à alta gestão, para não afetar a independência na atuação
A remuneração em ações para membros de conselhos de administração é uma prática consolidada nos mercados mais desenvolvidos e tem sido usada para aproximar os interesses dos conselheiros dos interesses de longo prazo dos acionistas. O desenho desses incentivos, porém, exige cuidados próprios. Quando uma empresa reproduz no board o modelo aplicado à alta gestão, pode acabar criando incentivos que afetam justamente a independência e a capacidade de supervisão esperadas dos conselheiros.
Paulo Saliby, sócio e fundador da SG Comp Partners, aponta que a diferença começa pelo papel de cada profissional. Executivos são responsáveis pela execução da estratégia, pela entrega de resultados e pelo cumprimento de metas. O conselho acompanha essa execução, controla riscos, questiona decisões e, quando necessário, contraria a administração. A remuneração precisa acompanhar essa distinção. "O ILP do executivo deve estimular performance. O ILP do conselheiro deve promover alinhamento de longo prazo sem comprometer sua independência", afirma o executivo.
A prática de mercado já reflete essa diferença. Em 2025, no S&P 500 – principal índice do mercado de ações dos Estados Unidos –, stock awards (ações concedidas pela empresa) representaram em média 59% da remuneração dos conselheiros e stock options (compra de ações por um preço predefinido) corresponderam a apenas 3%. Somente 9% dos boards pesquisados utilizavam opções, ante 16% dez anos antes.
Para o especialista, o ILP do conselheiro deve criar exposição patrimonial de longo prazo ao valor da companhia e preservar a liberdade necessária para questionar estratégias, riscos e resultados. Alguns aspectos ajudam a explicar por que o desenho desses planos tende a ser diferente daquele adotado para executivos (para facilitar o entendimento, no final da matéria, um quadro detalha os principais termos utilizados abaixo e suas definições).
⇒ As stock options têm uma lógica importante na remuneração executiva, já que o ganho depende da valorização futura da empresa e o instrumento pode estimular tomada de risco e superação de metas. No conselho, instrumentos como RSUs, restricted shares e deferred shares ou units tendem a se encaixar melhor, pois criam uma exposição econômica de longo prazo ao valor da companhia sem introduzir o mesmo grau de convexidade das opções. "O conselheiro precisa ter exposição econômica às consequências de suas decisões, mas não necessariamente os mesmos incentivos de quem administra a companhia", explica Paulo.
⇒ Nos ILPs dos executivos, o conselho costuma aprovar objetivos, acompanhar resultados e determinar se as condições de performance foram cumpridas. Quando o próprio board passa a receber incentivos vinculados a essas métricas, os profissionais que influenciam a estratégia e supervisionam sua execução também passam a ter a remuneração afetada pelos indicadores que acompanham e sobre os quais exercem influência. "Quanto mais a remuneração do conselheiro depender de uma meta que ele próprio ajuda a definir, acompanhar e avaliar, maior o risco de confundirmos supervisão com execução", afirma o sócio da SG. Para conselheiros, ele considera mais adequado que o alinhamento seja produzido principalmente pela exposição ao valor da ação ao longo do tempo, sem depender do cumprimento de metas financeiras ou operacionais específicas.
⇒ Avaliações do conselho e de seus integrantes são instrumentos importantes para desenvolvimento, composição futura do board, sucessão e eventual recondução. Vincular diretamente o resultado desse processo ao valor recebido por cada conselheiro pode, porém, criar um incentivo indesejado à conformidade. Questionar uma decisão, divergir da maioria ou sustentar uma posição desconfortável fazem parte do papel fiduciário do conselheiro. Se a sua recompensa econômica depender da avaliação dos pares ou do presidente do conselho, essas atitudes podem acabar trazendo um custo financeiro pessoal. Paulo defende que a avaliação individual continue servindo como instrumento de governança e desenvolvimento, sem funcionar como multiplicador financeiro do ILP. Dessa forma, a empresa preserva o espaço necessário para divergência e questionamento dentro do board.
⇒ O alinhamento também pode ser construído por meio de regras de ownership e holding, que exigem a manutenção das ações por períodos prolongados. Nos Estados Unidos, muitos awards para conselheiros têm vesting em até um ano, embora algumas empresas determinem que parte relevante das ações seja mantida até o atingimento de determinado nível de propriedade. Em grandes companhias, há modelos nos quais a retenção se estende até o encerramento do mandato. Esse desenho mantém o conselheiro exposto às consequências econômicas das decisões tomadas durante sua atuação no board, inclusive quando seus efeitos aparecem depois, e reduz o risco de uma visão excessivamente concentrada no resultado de curto prazo.
As diretrizes internacionais de governança caminham na mesma direção. Nas orientações de 2026 para os Estados Unidos, a consultoria Glass Lewis afirma que a remuneração em ações pode ser adequada para alinhar conselheiros externos aos acionistas, mas considera que os grants destinados ao conselho não deveriam ser baseados em performance. A entidade também alerta que níveis excessivos de remuneração podem afetar a objetividade e a independência dos conselheiros.
A ISS – Institutional Shareholder Services, especializada em governança corporativa, análise de remuneração e serviços de apoio a investidores institucionais, procura conciliar o alinhamento econômico com os acionistas e a responsabilidade de supervisão independente dos membros do conselho. Entre os elementos considerados problemáticos estão incentivos condicionados à performance para conselheiros, enquanto requisitos relevantes de propriedade e retenção de ações são valorizados. Para 2026, a instituição também tornou mais rigorosa sua política sobre remunerações consideradas excessivas ou problemáticas.
Na avaliação de Paulo, um bom desenho de ILP para conselhos tende a combinar participação relevante em ações, horizonte longo de retenção, transparência e limites adequados, com pouca ou nenhuma dependência de metas de performance, especialmente de indicadores individuais.
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DECIFRANDO A REMUNERAÇÃO DE LONGO PRAZO
Full Value Awards Categoria de planos de incentivo de longo prazo em que o ganho do participante corresponde ao valor total da ação recebida. É diferente das stock options, em que o participante ganha apenas com a valorização da ação acima de um preço previamente definido. RSUs, Restricted Shares e Deferred Stock Units são exemplos de full value awards:
► RSUs (Restricted Stock Units) Unidades que dão ao participante o direito de receber ações depois de cumprir as condições previstas no plano – normalmente, permanecer por determinado período e, eventualmente, atingir determinadas metas. Diferentemente das stock options, o participante não precisa pagar um preço para adquirir essas ações. No Brasil, é bastante comum que planos chamados genericamente de "ações restritas" funcionem, na prática, de forma semelhante às RSUs: a ação só é efetivamente transferida ao participante depois que as condições previstas forem cumpridas.
► Restricted Shares São muito parecidas com as RSUs. A principal diferença é o momento em que a ação passa para o participante. Nas restricted shares, em seu conceito mais estrito, as ações são concedidas desde o início, mas podem ser perdidas posteriormente, caso determinadas condições não sejam cumpridas. Nas RSUs, a ação só é efetivamente transferida depois do cumprimento dessas condições. Essa distinção é mais comum em mercados como o norte-americano. No Brasil, conceder a propriedade da ação desde o início e eventualmente ter de revertê-la depois envolve maior complexidade jurídica e societária. Por isso, aqui é comum que a expressão "ações restritas" também seja utilizada para planos que, na prática, seguem uma mecânica semelhante à das RSUs.
► Deferred Shares / Deferred Stock Units (DSUs) São ações ou unidades vinculadas ao valor das ações cuja transferência efetiva para o participante fica adiada para uma data futura. Por exemplo: o conselheiro pode já ter adquirido o direito ao benefício, mas receber efetivamente as ações apenas quando deixar o conselho. Dessa forma, ele continua tendo seu benefício vinculado ao valor da companhia por mais tempo. É uma mecânica utilizada internacionalmente na remuneração de conselheiros justamente para reforçar o alinhamento de longo prazo com os acionistas.
Vesting É o momento ou o processo pelo qual o participante passa a ter definitivamente o direito ao benefício previsto no plano. Normalmente, isso acontece depois de permanecer determinado período na companhia e, em alguns planos, também pode depender do cumprimento de metas. O vesting pode acontecer de uma só vez ou gradualmente, em parcelas. E ele não significa necessariamente que a ação será entregue naquele mesmo momento: em alguns planos, como nas Deferred Stock Units, a entrega pode ocorrer mais adiante.
Ownership | Stock Ownership Guidelines São regras que estabelecem uma quantidade ou um valor mínimo de ações da companhia que executivos ou conselheiros devem manter. A lógica é bastante simples: fazer com que uma parte relevante do patrimônio dessas pessoas continue vinculada ao valor da empresa, para que elas também sintam, como os demais acionistas, os efeitos de sua valorização ou desvalorização.
Holding Period | Lock-up Holding period é o período durante o qual o participante mantém as ações em sua propriedade e lock-up é uma regra que impede que essas ações sejam vendidas durante determinado período. Na prática, o lock-up cria um período obrigatório de manutenção das ações, inclusive podendo continuar depois do vesting. O objetivo é evitar que o executivo ou conselheiro receba as ações e as venda imediatamente, prolongando seu alinhamento com os acionistas e com o desempenho futuro da companhia.
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