O topo das empresas agora prioriza a conexão de saberes à ultraespecialização
Especialista explica como o nexialismo substitui o modelo de silos por uma visão estratégica integrada
O mundo dos negócios nunca exigiu tanto de quem lidera, decide e inova. No tabuleiro corporativo, as peças mudaram. Se no século passado a regra de ouro era a ultraespecialização — o famoso "saber quase tudo sobre quase nada" —, as décadas seguintes trouxeram um dilema: melhor um técnico profundo ou um generalista de ampla visão? Mas, de acordo com Marcelo Veras, CEO do Ecossistema Inova, hoje, essa disputa de perfis já não comporta a complexidade dos negócios e ganha força o nexialismo, modelo mental que une profundidade técnica e visão sistêmica para resolver problemas complexos.
“Ao pé da letra, o nexialismo é a habilidade de encontrar nexo entre diferentes campos do saber para solucionar questões complexas através de novos ângulos. O profissional nexialista utiliza diversas lentes mentais, como a psicologia, a filosofia, a ciência de dados, entre outras, para analisar um desafio sob múltiplas perspectivas até torná-lo simples de resolver”, esclarece.
Do modelo militar ao nexialismo
Essa visão integradora é o que permite quebrar a estrutura de silos que ainda domina muitas organizações. De acordo como especialista, o modelo de gestão tradicional, consolidado após a Segunda Guerra Mundial, foi fortemente inspirado nas Forças Armadas. Das fardas para os ternos, foram “importados” a hierarquia rígida, o vocabulário bélico e a divisão estanque de tarefas.
Embora funcional no passado, essa fragmentação gera hoje perda de competitividade, pois tratar questões de forma isolada impede a percepção de transformações iminentes. "Especialistas e generalistas puros enfrentam dificuldades para lidar com tamanha complexidade. Precisamos de múltiplas lentes, sob pena de não conseguirmos liderar organizações em um mundo mutante", analisa.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial surge como um catalisador para a valorização do fator humano. Enquanto a tecnologia assume tarefas técnicas e processamento de dados com velocidade recorde, a capacidade de estabelecer conexões torna-se o diferencial competitivo. Para Marcelo, a IA é imbatível em algoritmos e probabilidades, mas limitada em visões estratégicas. "A IA gera probabilidades; o ser humano gera possibilidades. O nexialismo permite navegar na transição tecnológica mantendo nosso lugar essencial: o de fazer conexões, às vezes incomuns. Nisso, o ser humano será sempre único", afirma.
Identificar o perfil nexialista em uma equipe depende menos de currículos extensos e mais de comportamento, em que duas características são fundamentais: humildade e curiosidade. A primeira serve para reconhecer que ninguém detém todo o conhecimento sozinho; a segunda, para buscar referências fora da bolha da gestão tradicional, como a neurociência, filosofia, diplomacia, entre outras. O impacto da postura é visível no topo da pirâmide.
Segundo o especialista, que também atua como conselheiro em empresas, mais de 50% dos CEOs já buscam um aprofundamento multidisciplinar. Para quem deseja iniciar a transição, o caminho prático não exige novas graduações, mas um "letramento" constante. "Cada minuto investido em conhecer uma nova área de conhecimento aumenta a força na tomada de decisão. A filosofia, por exemplo, pode não trazer todas as respostas, mas ajuda a organizar o pensamento e a formular as próximas melhores perguntas", conclui.
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