Pesquisa aponta despreparo das empresas brasileiras para lidar com riscos psicossociais
Estudo da consultoria Heach aponta que a maioria não tem entendimento claro das mudanças na NR-1
Uma pesquisa nacional realizada pela Heach Recursos Humanos, entre 6 e 22 de janeiro, revela um cenário preocupante diante das mudanças trazidas pelas alterações na NR-1, que passa a exigir das organizações uma abordagem mais estruturada sobre riscos psicossociais, saúde mental, preparo da liderança e governança na gestão de pessoas.
Entre os 1.730 entrevistados, 68% afirmaram não compreender claramente o que mudou e 62% não possuem qualquer indicador formal para identificação e monitoramento de riscos psicossociais, um dos pontos centrais da atualização da norma. Além disso, 58% admitem que só reagiriam a problemas de saúde mental após afastamentos, denúncias formais ou ações judiciais, evidenciando um modelo ainda predominantemente reativo.
Para Elcio Paulo Teixeira, CEO da Heach, a atualização da norma expõe uma fragilidade antiga: "A nova NR-1 não cria um problema novo. Ela apenas torna visível um risco que as empresas brasileiras vêm ignorando há anos. O discurso sobre saúde mental avançou, mas a estrutura para lidar com isso não acompanhou", avalia.
A pesquisa aponta ainda que a liderança ocupa papel central nesse cenário de risco: 67% dos líderes nunca passaram por avaliação comportamental ou psicológica estruturada e 54% não receberam treinamento para lidar com conflitos, pressão emocional ou situações críticas. Para 49% dos profissionais de RH ouvidos, o comportamento da liderança é hoje o principal fator de adoecimento emocional das equipes.
Elcio assinala que não é possível falar em cultura saudável quando quem lidera não está preparado emocionalmente para liderar pessoas. E a NR-1 colocou luz exatamente sobre essa incoerência.
O estudo também evidencia um descompasso entre discurso e prática. Embora 78% das empresas afirmem se preocupar com saúde mental, apenas 23% possuem políticas formais, orçamento dedicado e indicadores claros. Em 64% dos casos, o tema ainda é tratado de forma pontual, como ações isoladas ou benefícios desconectados da estratégia organizacional.
Os impactos desse despreparo já são percebidos em indicadores operacionais. 61% das empresas não sabem calcular o custo real do turnover, e 44% perdem talentos por fatores ligados a clima organizacional e liderança, e não por remuneração.
Além disso, 52% admitem manter profissionais com comportamento tóxico por receio de perda de resultados de curto prazo, ampliando riscos trabalhistas e de saúde coletiva.
"A NR-1 deixa claro que não se trata mais de boa vontade ou narrativa de ESG. Trata-se de responsabilidade legal, risco financeiro e impacto humano. As empresas que não se prepararem agora estarão expostas”, alerta o executivo.
A pesquisa também reforça o fenômeno dos profissionais invisíveis. 39% dos trabalhadores se sentem pouco ou nada reconhecidos e 48% afirmam assumir responsabilidades acima do cargo sem contrapartida, cenário que eleva significativamente o risco de desligamentos e afastamentos. Organizações com altos índices de invisibilidade apresentam até o dobro de turnover, segundo o estudo.
"Ignorar pessoas sempre teve custo. A diferença é que agora a NR-1 obriga as empresas a enxergarem isso de forma objetiva e mensurável", conclui Elcio.
Foto: Shutterstock








