Profissionais com intenção de sair do emprego apresentam baixa segurança psicológica
Estudo mostra que falhas em escuta e liderança agravam desgaste e aumentam o desejo de pedir demissão
Profissionais que pretendem deixar suas empresas relatam níveis significativamente mais baixos de segurança psicológica no trabalho. Segundo uma pesquisa sobre a experiência dos colaboradores realizada neste ano pela Pin People, com apoio da TotalPass, o índice cai de 81% entre quem deseja permanecer mais do que cinco anos para 45% entre os que planejam sair no próximo ano.
O estudo também aponta deterioração na cultura de feedback ao longo da jornada – de 83% no onboarding para 49% no offboarding – e baixa percepção de escuta, reforçando o papel da liderança no desgaste e na intenção de saída.
O levantamento foi feito com base em mais de 1 milhão de pesquisas respondidas, com participação de 139 empresas, mais de 560 mil colaboradores ouvidos e mais de 800 mil comentários analisados. A mostra reúne empresas com operações em 37 países além do Brasil.
"Quando as empresas acompanham de forma contínua temas como escuta, liderança e bem-estar ao longo da jornada do colaborador, deixam de reagir apenas quando o problema já se instalou e passam a atuar com mais precisão e estratégia. Mensurar essa experiência de forma estruturada é o que permite identificar sinais de desgaste com antecedência e construir ambientes mais saudáveis e sustentáveis para as pessoas e para o negócio", diz Frederico Lacerda, CEO da Pin People.
LIDERANÇA E ESCUTA
A liderança aparece como um dos pontos centrais do levantamento. Os dados sugerem que os gestores são percebidos como mais presentes no início da jornada, mas essa percepção se enfraquece ao longo do tempo.
Isso aparece na queda do suporte da liderança, que recua de 73,4% de sentimentos positivos na entrada na empresa para 23,8% no momento da saída, e na piora da comunicação e da cultura de feedback ao longo da experiência. Na prática, o estudo indica dificuldade das empresas em sustentar presença, escuta e acompanhamento de forma consistente até o fim da jornada do colaborador.
BEM-ESTAR
O equilíbrio entre vida e trabalho também está entre as principais dores de colaboradores detratores e neutros do eNPS, assim como entre os fatores associados à baixa expectativa de permanência, mostrando que o tema deixou de ser periférico e passou a influenciar retenção. Entre lideranças com alto risco de turnover, Impactos no Bem-estar aparece duas vezes mais como motivo de baixa expectativa de permanência, recorte que não aparece com a mesma relevância nos demais níveis hierárquicos.
"O mercado avançou na discussão sobre bem-estar, mas agora o desafio é transformar intenção em prática estruturada. No fim, empresas mais saudáveis são também empresas mais preparadas para crescer de forma consistente", afirma Felipe Calbucci, CEO da TotalPass.
EFEITO LUA DE MEL
O levantamento também aponta um fenômeno: a expectativa criada no processo seletivo nem sempre se sustenta na experiência real do colaborador. Embora nove em cada dez profissionais afirmem que o recrutamento teve impacto positivo na decisão de aceitar a vaga, a pesquisa identifica uma queda acumulada de nove pontos no eNPS entre o 7º e o 90º dia de jornada.
Na prática, isso mostra que a percepção positiva da entrada pode se deteriorar rapidamente quando a realidade do cargo, da rotina e da cultura não corresponde ao que foi apresentado no processo seletivo.
Entre os colaboradores detratores nesse período, 90% demonstram insatisfação com o alinhamento de expectativas do cargo, e apenas 10% avaliam positivamente esse aspecto nos primeiros 30 dias, indicando que a frustração começa cedo quando a promessa de entrada não se converte em experiência consistente.
Na avaliação de Felipe, os resultados reforçam que os sinais de ruptura da experiência não surgem de episódios isolados, mas do acúmulo de pequenas fricções ao longo da jornada. "Quando faltam escuta, clareza, consistência da gestão e segurança para que as pessoas se expressem, o desgaste se acumula silenciosamente até virar intenção de saída. O desafio das organizações é tratar esses sinais de forma mais estratégica e contínua", afirma.
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