Capacitismo atinge 76% das pessoas com deficiência no mercado de trabalho
Pesquisa nacional aponta barreiras desde os processos seletivos até a promoção e o acesso a cargos de liderança
Três em cada quatro pessoas com deficiência ou neurodivergentes que trabalham afirmam já ter enfrentado ao menos uma situação de capacitismo. O índice de 76% foi registrado na terceira edição da pesquisa Radar da Inclusão 2026, conduzida pela Talento Incluir e o Pacto Global da ONU – Rede Brasil e realizada pelo Instituto Locomotiva.
O levantamento ouviu 2.526 pessoas com deficiência ou neurodivergentes, com 16 anos ou mais, em todo o país. Para avaliar as experiências profissionais, o estudo considerou uma base de 2.068 participantes que estão na força de trabalho, entre empregados, autônomos, empreendedores e pessoas em busca de emprego.
Entre as situações relatadas estão comentários capacitistas, discriminação por colegas ou gestores, desqualificação profissional e perda de oportunidades de promoção. A incidência é ainda maior entre participantes que também se declararam LGBTQIA+, grupo em que o percentual chega a 84%. Entre mulheres cis, são 81%.
Barreiras começam na seleção
Os problemas aparecem antes mesmo da contratação. Segundo a pesquisa, 73% das pessoas passaram por pelo menos uma das situações investigadas durante processos seletivos.
Para 63%, houve desvalorização do perfil profissional, com oferta de vagas com menor exigência de qualificação. Outros 48% perceberam falta de preparo dos recrutadores para conduzir processos acessíveis, enquanto 40% encontraram barreiras de acessibilidade que dificultaram a participação na seleção.
Depois da contratação, as lideranças aparecem com frequência nos relatos de discriminação. Entre os participantes na força de trabalho, 53% afirmam ter sofrido preconceito ou discriminação por parte de gestores. Colegas da própria equipe são mencionados por 52%, e profissionais de outras áreas, por 46%.
Dos participantes que sofreram capacitismo, 64% estavam empregados quando o episódio ocorreu. Apenas 36%, porém, comunicaram o caso à empresa.
Entre aqueles que recorreram aos canais internos, 47% afirmaram não ter se sentido respeitados ou acolhidos. Outros 35% disseram ter sido parcialmente acolhidos e 18% avaliaram o acolhimento como total.
Ainda falta acessibilidade nas empresas
As barreiras de acessibilidade também fazem parte do cotidiano profissional. Entre as pessoas empregadas, 44% relatam dificuldades para participar de confraternizações, eventos ou momentos de integração com colegas.
Problemas para circular por espaços internos das empresas, como estações de trabalho, banheiros e refeitórios, são apontados por 29%.
A percepção sobre o mercado também é negativa para uma parcela relevante dos entrevistados. Entre aqueles que estão na força de trabalho, 49% consideram que ter uma deficiência ou ser neurodivergente reduz as chances de conseguir um bom emprego. Para 68%, nenhuma empresa ou apenas uma minoria delas está preparada para receber esses profissionais.
Além disso, 78% acreditam que as empresas contratam profissionais com deficiência principalmente para cargos de entrada.
Promoção e liderança continuam distantes
O levantamento mostra que as barreiras permanecem depois da contratação. Entre os que estão empregados, 59% dizem que suas empresas não oferecem programas de mentoria, aconselhamento ou orientação de carreira específicos.
Quase metade, 48%, está há mais de três anos na empresa atual. Dentro desse grupo, 44% nunca receberam uma promoção. Entre os profissionais com ensino superior ou maior nível de escolaridade, o percentual é de 42%.
A presença em cargos de liderança também é limitada: 84% não ocupam posições de liderança; 11% estão em cargos de média liderança e apenas 1% ocupa posições de alta liderança.
A recolocação profissional é outro desafio apontado pelo estudo. Entre os empregados, 62% passaram por um período de busca por trabalho antes de conseguir o emprego atual. Desse grupo, 48% levaram mais de seis meses para obter uma nova colocação.
Para Verônica Vassalo, gerente de Diversidade, Equidade e Inclusão do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, os resultados mostram que as dificuldades não se concentram apenas no ingresso no mercado de trabalho, mas acompanham toda a trajetória profissional. “A inclusão de pessoas com deficiência é uma agenda de Direitos Humanos e um compromisso fundamental para o avanço da Agenda 2030. Os dados mostram que ainda existem barreiras que atravessam não apenas o acesso ao trabalho, mas também a permanência, o desenvolvimento e a progressão profissional”, afirma.
Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir, avalia que a contratação, sozinha, não é suficiente para garantir a inclusão. “Quando pessoas com deficiência não encontram acessibilidade, reconhecimento e perspectivas de carreira, as empresas desperdiçam competências, aumentam a rotatividade e comprometem o retorno de seus investimentos em diversidade. Incluir também pressupõe criar condições para o futuro desses profissionais”, frisa.
As mais lembradas por iniciativas de inclusão
A pesquisa também perguntou aos participantes quais empresas reconhecem por iniciativas de inclusão, apoio e valorização de pessoas com deficiência. Entre as marcas mais citadas estão Bradesco, The Coca-Cola Company, Coca-Cola Femsa, Globo, Google, Grupo Boticário, Itaú, Mercado Livre, Natura, Santander e Vivo.
A lista representa a percepção espontânea dos participantes e não constitui ranking, certificação ou avaliação das empresas pela Talento Incluir.
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