Você vai ser substituído por alguém que sabe usar a IA - Os cinco pecados dessa frase
Para a jornalista e pesquisadora Adriele Marchesini, disseminar esse mantra é um erro estratégico grave
Por Adriele Marchesini*
"Você não vai ser substituído pela IA. Vai ser substituído por alguém que sabe usar a IA."
Tenho certeza de que muitas pessoas que falaram essas palavras tinham a ótima intenção de mostrar que a substituição profissional não é um fato, mas um efeito colateral evitável. De toda maneira, a partir do momento em que são comunicadas, as mensagens correm como animais selvagens; tomam vida própria e geram consequências, muitas vezes, inesperadas. É nesse momento que nos cabe uma revisão da comunicação. E é nesse momento que estamos agora.
Essa frase, depois de solta aos ventos, carrega cinco pecados. O primeiro deles é a crueldade. O raciocínio coloca sobre o indivíduo toda a responsabilidade por transformações socioeconômicas que, como não poderia ser diferente, estão absolutamente fora de seu alcance.
Desde que o ChatGPT foi lançado, em 2022, a contratação de desenvolvedores de software de nível júnior caiu 20% nos Estados Unidos, segundo estudo de Stanford. Que história esse dado nos conta? A de um dev retrógrado, inimigo do progresso, que pagou o preço pelo seu apego nostálgico ao passado; ou a de uma classe inteira de cargos — nesse caso, de entrada — que evaporou? Vagas juniores geralmente são aquelas com funções repetitivas — prato cheio para a automação. Se as empresas extinguem essas oportunidades de emprego porque uma tecnologia é capaz de executá-las melhor do que um humano, a responsabilidade é de quem não se atualizou?
O segundo pecado conversa com o primeiro. Vou chamá-lo de ingenuidade, porque desconsidera o fundamento da inovação, que é ganho de eficiência. Há cerca de cem anos, o economista e cientista político Joseph Schumpeter alertou que para uma transformação de processos e tecnologia fazer sentido, é preciso o cumprimento de três condições: que o preço do produto não caia proporcionalmente ao aumento da oferta, que o investimento na tecnologia seja menor do que o valor economizado com o corte de salários e, por fim, que esse saldo não seja comprometido com um eventual aumento no preço dos insumos que a tecnologia demanda. Fazer mais com menos sempre significará fazer mais com menos.
O terceiro pecado é ser simplista: coloca na mesma esfera transformações que são incomparáveis. Há inovações que são incrementais, ou seja, trazem eficiência às funções; e há aquelas disruptivas, que reconfiguram as estruturas. Uma coisa é um assistente administrativo que se nega a usar o computador e exige seguir com a máquina de escrever. Outra situação são funções que simplesmente deixam de existir diante de uma nova tecnologia: a discagem direta tornou desnecessária a figura da telefonista; a automação via RPA substituiu a tarefa humana de copiar informações de um sistema para o outro; a IA generativa abocanhou a função que antes era exercida exclusivamente por pessoas. Segundo estudo da OIT, isso acontece com tradutores, locutores e redatores, para citar alguns exemplos.
O quarto pecado dessa frase é ser estreita. Olha para a bolha dos centros urbanos e financeiros e esquece que não só o mundo é diverso, como também o Brasil tem realidades completamente distintas em territórios separados por poucos quilômetros. Vivemos em uma realidade na qual um em cada oito dos graduados no ensino superior são analfabetos funcionais, segundo dados do Indicador de Analfabetismo Funcional de 2024. Essas pessoas são incapazes de interpretar textos um pouco mais longos. A interação com a IA generativa é, sim, mais fácil, mas não para quem não consegue absorver o que está escrito.
O último pecado é que a ideia contida nessa fala induz ao erro. Note que a substituição é dada como certa — não há ponderações sobre nível profissional, setor de atuação da empresa e até realidade regional. O que uma pessoa que não quer ficar para trás faz? Investe em especialização.
A problemática, obviamente, não é estudar. É tomar decisões tendo o medo de ficar de fora como base e correr o risco de comprar cursos e encher o bolso de quem vende soluções simples (e ineficientes) para problemas complexos. No caso extremo, o sujeito perde tempo, dinheiro e a crença de que é capaz de se atualizar frente às inovações.
Corram para as montanhas?
A saída, então, é correr para as montanhas? A literatura também aponta caminhos mais sólidos (e talvez menos íngremes) nos processos de transformação. Um estudo publicado na Nature Human Behaviour analisou mais de 70 milhões de transições de carreira em mais de mil ocupações no mercado estadunidense entre 2005 e 2019.
O achado é contraintuitivo para quem aposta todas as fichas na especialização técnica: trabalhadores com base fundacional mais ampla — habilidades como leitura, raciocínio lógico, resolução de problemas, trabalho em equipe — avançaram mais na carreira, aprenderam habilidades novas com mais rapidez, ganharam mais e, o que mais interessa aqui, se mostraram mais resilientes diante de mudanças estruturais do que aqueles com expertise técnica estreita e específica — domínio de ferramentas ou linguagens técnicas específicas, como uma plataforma de programação.
Não é que a técnica não importe, mas os conhecimentos específicos, que na década de 1980 tinham um ciclo longo de vida, duravam cerca de dez anos, hoje expiram em quatro anos e, em pouco tempo, durarão dois anos.
Um recado final
A proposta, aqui, não é nem demonizar a IA generativa — até porque eu não acredito nisso — e nem desestimular o investimento em especialização — que é, sim, necessário. Estamos falando de uma ferramenta com muito potencial. Mas um elemento que não pode ficar de fora em momentos ansiogênicos como este, de disrupção, é a calma. A avaliação cuidadosa. O entendimento sobre onde colocar energia a partir de uma avaliação que considera elementos mais amplos. Porque os falsos profetas ganham em cima do nosso medo; e passada a provação, a nós, só resta lidar com as consequências dos pecados alheios.
*Adriele Marchesini jornalista, pesquisadora e fundadora e diretora-executiva da Verbo Conteúdo e Curadoria
Foto: Jean Carniel








