Autoconhecimento, saúde emocional e trabalho – quando o cuidado vira cultura
A experiência da Motiva Aeroportos contada por sua gerente executiva de Pessoas e Comunicação
Por Ana Eliza Figueiredo*
Falar sobre autoconhecimento é falar sobre a capacidade de olhar para si com honestidade, reconhecer emoções, limites, potências e padrões de comportamento. É compreender onde estamos, o que nos move, o que nos desafia e quais escolhas fazem sentido para a vida que queremos construir. Esse processo nem sempre é simples, mas é fundamental para uma trajetória mais consciente, menos automática e mais coerente com nossos valores.
Como psicóloga de formação e executiva de Pessoas e Comunicação, acredito que o autoconhecimento é uma competência essencial para o desenvolvimento profissional. Em ambientes cada vez mais complexos, acelerados e exigentes, não basta dominar ferramentas técnicas ou entregar resultados. Também é preciso desenvolver presença, escuta, equilíbrio emocional e clareza para tomar decisões, lidar com conflitos, atravessar mudanças e construir relações mais saudáveis.
Esse movimento passa, muitas vezes, por algo aparentemente simples, mas ainda pouco praticado no cotidiano corporativo: a pausa. Parar por alguns minutos, respirar, observar pensamentos e emoções e reconhecer como estamos não é perda de tempo. É uma forma de ampliar a consciência, recuperar energia e cuidar da qualidade das nossas respostas diante dos desafios. No trabalho, pequenas pausas podem contribuir diretamente para decisões mais responsáveis, conversas mais cuidadosas e relações mais equilibradas.
O tema ganha ainda mais relevância diante de dados globais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão e a ansiedade causam a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, gerando um impacto de US$ 1 trilhão em produtividade perdida. No Brasil, o avanço regulatório refletiu essa urgência ao incluir os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da NR-1. Nesse cenário, o cuidado com a saúde emocional não pode ser visto como algo isolado da estratégia ou de responsabilidade apenas individual, pois as organizações são feitas de pessoas, e promover saúde é criar condições para que atuem com mais segurança, equilíbrio e sentido.
Foi a partir dessa convicção que a Motiva Aeroportos estruturou a Rota do Equilíbrio, um programa voltado à saúde emocional, ao autocuidado e à felicidade corporativa. A iniciativa nasceu como um espaço simples, acessível e seguro para que os colaboradores pudessem fazer uma pausa na rotina, respirar, relaxar e se reconectar consigo mesmo. Com encontros online, duas vezes por semana, durante três meses, as sessões de 20 minutos foram conduzidas por uma profissional especializada em práticas de mindfulness, respiração e relaxamento.
Esse desenho foi um dos diferenciais do programa. Ao garantir participação voluntária, sem a obrigatoriedade de interagir, ligar a câmera ou se expor, a Rota do Equilíbrio tornou o cuidado verdadeiramente inclusivo. Bastava entrar na sessão e viver aquele momento. Em temas sensíveis como saúde mental, criar ambientes livres de julgamento ou exposição é uma forma concreta de dar segurança para que as pessoas participem sem o receio de demonstrar vulnerabilidade.
Os resultados da edição piloto trouxeram aprendizados valiosos. Houve uma predominância do público feminino (63%), reforçando a tendência de maior prontidão das mulheres para práticas reflexivas. A maior participação de não líderes (64%) mostrou que a iniciativa alcançou a base da organização com sucesso, enquanto a adesão de 36% de lideranças evidenciou uma abertura importante da gestão para o autocuidado. A geração Y foi o grupo com maior engajamento.
A percepção dos colaboradores reforçou a eficácia das pausas na rotina: 55% dos participantes relataram sentir-se mais calmos e reflexivos após os encontros, 24% sentiram-se conectados e inspirados, e 22% energizados e leves. Além disso, 98% afirmaram que o conteúdo atendeu totalmente às suas expectativas. Os feedbacks trouxeram palavras como leveza, acolhimento e gratidão pelo tempo de reconexão proporcionado, gerando um forte desejo coletivo de continuidade, proposta que já está em análise para próximos ciclos.
Esse compromisso consistente com a saúde emocional rendeu à Rota do Equilíbrio o 4º lugar na categoria Felicidade Corporativa do Prêmio Melhor RH Innovation 2026. Mais do que um reconhecimento do mercado, o prêmio válida a escolha de colocar o cuidado no centro da cultura organizacional e tratar a felicidade no trabalho como uma construção cotidiana.
A principal aprendizagem dessa jornada é que a inovação em gestão de pessoas nem sempre nasce de soluções complexas. Muitas vezes, ela começa com uma pergunta simples: que espaço estamos criando para que as pessoas respirem, se reconheçam e se cuidem? Quando o cuidado deixa de ser discurso e passa a fazer parte do cotidiano, ele fortalece vínculos, amplia a consciência e contribui para ambientes mais humanos e sustentáveis.
Autoconhecimento, portanto, não é apenas uma jornada individual. Nas organizações, ele também é um convite coletivo para repensarmos a forma como trabalhamos, lideramos e nos relacionamos. E talvez esse seja um dos caminhos mais importantes para o futuro do trabalho: construir culturas em que desempenho e cuidado não sejam vistos como forças opostas, mas como dimensões que precisam caminhar juntas.
*Ana Eliza Figueiredo é gerente executiva de Pessoas e Comunicação da Motiva Aeroportos
Foto: Germano Lüders








