A alta liderança precisa criar agentes de IA? Depende
Breno Vaz, VP de Gente e Jurídico da Conexa, reflete sobre o novo papel e as novas competências dos líderes
Por Breno Vaz*
Recentemente ouvi uma pergunta que continuou comigo por dias: "Todos os líderes da alta gestão precisam saber criar agentes de IA?" Minha resposta foi imediata e sincera: não sei, preciso pensar. A honestidade me pareceu mais útil do que uma resposta rápida, principalmente porque a pergunta mistura competências técnicas com capacidade de liderança.
Quanto mais refleti sobre o tema, mais percebi que existem duas perguntas diferentes escondidas ali. A primeira é: saber criar agentes de IA se tornou necessário para gerar valor real para a empresa? A segunda: essa habilidade torna um líder sênior mais preparado para gerir equipes que desenvolvem e utilizam IA? E as respostas, na minha visão, não são as mesmas.
Para a primeira, minha resposta é não. Criar agentes não deve ser pré-requisito para executivos da alta liderança. O papel da gestão continua sendo definir prioridades, montar times, avaliar impacto, direcionar investimentos e cobrar resultados. Um CFO não precisa programar os modelos financeiros usados pela empresa. Um CMO não precisa configurar algoritmos de mídia. Liderança não se mede pela execução técnica individual.
Já para a segunda pergunta, a resposta muda. Entender como os agentes funcionam, quais são seus limites e onde podem gerar valor torna qualquer líder mais preparado para tomar decisões. Não para executar, mas para avaliar melhor. Para fazer perguntas mais precisas. Para distinguir soluções que resolvem problemas reais daquelas que apenas impressionam em uma demonstração.
Nos últimos meses, muitos profissionais viveram algo parecido com o conceito de PR no esporte, o famoso personal record. Pessoas que nunca programaram começaram a criar automações, agentes e protótipos funcionais. Isso é legítimo e merece reconhecimento. Existe um ganho real de repertório e autonomia acontecendo dentro das empresas.
Mas há uma diferença importante entre conquistar um PR e estar pronto para uma competição olímpica. Criar algo funcional não significa, necessariamente, que aquilo está preparado para operar em escala, atender clientes reais ou sustentar processos críticos. E talvez uma das habilidades mais importantes da liderança neste momento seja justamente desenvolver clareza para separar evolução interna de maturidade de mercado.
Esse é um ponto que considero pouco discutido: a capacidade de construir deixou de ser uma grande barreira competitiva. Hoje, praticamente qualquer profissional consegue criar um agente, um chatbot ou uma automação com ferramentas acessíveis. A velocidade de criação se democratizou de forma impressionante, mas isso também inundou o mercado de soluções criadas mais para demonstrar capacidade técnica do que para resolver problemas relevantes.
Estamos entrando em uma fase em que criar deixou de ser o diferencial. O verdadeiro valor passa a estar na capacidade de identificar o problema certo, entender o contexto de negócio e sustentar soluções no longo prazo. Porque é relativamente fácil construir algo que funciona em uma reunião de apresentação, Difícil é construir algo que continue relevante diante da complexidade do dia a dia.
Por isso, acredito que a alta liderança deveria concentrar menos energia em aprender a desenvolver agentes e mais em aprender a avaliá-los. Algumas perguntas ajudam nesse processo: essa solução resolve um problema que realmente importa para a empresa ou apenas demonstra capacidade técnica? Existe clareza sobre quem manterá, evoluirá e responderá por ela ao longo do tempo? E, talvez a principal: se um cliente utilizasse a solução amanhã e me desse um feedback duro, eu ficaria animado para evoluir ou envergonhado por ter feito a entrega?
No fim, estamos vivendo um momento em que a IA amplia drasticamente a capacidade de execução. Mas a responsabilidade de decidir o que vale a pena executar continua sendo humana. Talvez o debate mais importante para a alta liderança não seja saber criar agentes, mas conseguir distinguir o que gera valor real daquilo que apenas parece um personal record.
*Breno Vaz é vice-presidente de Gente e Jurídico da Conexae e apaixonado por esportes, suas estratégias e lições para a vida
Foto: Divulgação/Conexa








