Quando Jennifer Wallace lançou o livro Nunca o Suficiente, a discussão logo ultrapassou os limites da educação e da parentalidade para tocar um ponto muito mais profundo da sociedade contemporânea: a forma como aprendemos a associar valor humano à performance constante.
Ela chama a atenção para uma cultura baseada na sensação permanente de insuficiência. Não basta entregar, é preciso superar. Não basta performar bem, é preciso manter a excelência contínua. Não basta crescer, é preciso acelerar o tempo inteiro.
Embora essa reflexão tenha ganhado força no campo comportamental, o ambiente corporativo se tornou um dos principais espaços de reprodução da lógica do desempenho infinito. Profissionais são estimulados a produzir mais, responder mais rápido, aprender continuamente, estar disponíveis o tempo todo e sustentar alta performance sem interrupção.
A consequência aparece em um cenário que se tornou estrutural: burnout, fadiga cognitiva, ansiedade, esgotamento emocional e perda de sentido no trabalho hoje fazem parte da realidade de milhares de pessoas.
Por muito tempo, a tecnologia foi apontada como uma das grandes responsáveis por isso. Entretanto, o problema pode nunca ter sido ela, mas a lógica de desempenho infinito. Se a inteligência artificial servir apenas para acelerar pessoas já exaustas, teremos automatizado o cansaço, porque, nesse cenário, a IA deixa de funcionar como ferramenta de apoio e passa a ser amplificadora de um modelo de trabalho adoecido. Automatizam-se tarefas, mas também a urgência, a ansiedade e a pressão constante por entrega.
O resultado não será inovação, mas uma versão mais sofisticada da exaustão corporativa. Talvez esse seja o principal erro de parte das discussões sobre inteligência artificial: acreditar que eficiência operacional sozinha resolve problemas que na verdade são culturais e emocionais.
Boa parte da nossa sobrecarga não nasce só do volume de trabalho. Ela nasce do excesso de ruído operacional que domina a rotina das empresas. Profissionais passam o dia alternando entre sistemas que não se conectam, reuniões improdutivas, excesso de aprovações, planilhas duplicadas, mensagens simultâneas, notificações permanentes e demandas que exigem respostas imediatas mesmo quando não são urgentes.
O cérebro fica permanentemente acionado, mas nem sempre para atividades que exigem criatividade, pensamento estratégico ou construção de valor real. A fadiga cognitiva nasce dessa fragmentação contínua da atenção e é aqui que IA pode representar uma oportunidade. Se utilizada com maturidade, alivia sobrecargas, reduz ruídos operacionais, automatiza tarefas repetitivas, simplifica fluxos burocráticos e devolve tempo para aquilo que de fato exige inteligência humana.
Isso muda a discussão, porque o valor mais importante da inteligência artificial talvez não esteja apenas na aceleração de processos, mas na possibilidade de devolver humanidade ao trabalho. Ao retirar das pessoas atividades excessivamente operacionais, abre-se espaço para estratégia, criatividade, relacionamento, análise contextual, escuta e construção de confiança. E não há uma área que simbolize tanto essa necessidade quanto RH.
Nos últimos anos, RH assumiu um papel central nas discussões sobre cultura organizacional, liderança, engajamento, diversidade, saúde emocional e experiência do colaborador. Ao mesmo tempo, equipes seguem operando sob enorme pressão, excesso de processos e cobrança contínua por performance.
Existe uma contradição evidente nisso. Esperamos que o RH cuide de pessoas enquanto ele próprio funciona em lógica permanente de exaustão. Nesse contexto, a IA pode representar uma mudança importante pela possibilidade de devolver ao RH algo que o excesso operacional retirou nos últimos anos: presença humana.
Existe uma diferença importante entre otimizar processos e humanizar relações. O papel mais relevante do RH daqui para frente seja justamente impedir que eficiência seja confundida com desumanização.
A discussão sobre inteligência artificial não deveria começar pela pergunta “como produzir mais?”, mas por “o que deve continuar exigindo energia humana?”.
Pode ser que a produtividade sustentável tenha menos relação com aceleração contínua e mais com clareza, foco, priorização e capacidade de recuperação emocional.
Jennifer Wallace traz essa provocação ao discutir sociedades onde o valor das pessoas passou a depender de desempenho constante. No ambiente corporativo, isso se traduz em profissionais que já não conseguem separar identidade de performance. Se produzem, sentem valor. Se desaceleram, sentem culpa.
A inteligência artificial pode estar nos obrigando a encarar uma discussão que o mercado adiou por anos. Num mundo obcecado por eficiência, o maior desafio não é criar máquinas mais inteligentes, é lembrar que pessoas não foram feitas para funcionar como máquinas. E aí existe uma oportunidade rara: construir relações profissionais menos baseadas em pressão permanente e mais sustentáveis emocionalmente.
No fim, o trabalho não será definido pela capacidade tecnológica das empresas. Será definido pela forma como elas escolhem cuidar das pessoas enquanto evoluem.

Gabriel Gatto é gerente de Atração e Seleção do Banco Daycoval e
especialista em recrutamento para tecnologia, IA aplicada ao RH e estratégias de atração de talentos
Foto Gabriel: Divulgação
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