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29/07/2026 - 15h00 Artigos

O NOVO LUXO É FEITO DE RELAÇÕES E COMEÇA DENTRO DA ORGANIZAÇÃO


Por Esther Schattan

 

Quando pensamos no universo do mercado premium, é natural associar essa experiência a elementos visíveis, como matérias-primas refinadas, design exclusivo ou serviços sofisticados. Durante décadas, a indústria concentrou seus esforços quase exclusivamente no contato final com o consumidor. Mas o segmento de alto padrão vem passando por uma transformação importante. Hoje, ele deixou de ser apenas sobre produto para refletir diretamente a cultura das empresas. O verdadeiro diferencial está nas relações humanas e, principalmente, na experiência de quem constrói a marca todos os dias nos bastidores, que são as pessoas.

 

Vivemos a era da “hospitalidade interna”. Já não existe espaço para oferecer uma experiência memorável ao consumidor sem proporcionar uma vivência positiva para quem está por trás dessa entrega. Em um mercado globalizado e cada vez mais competitivo, o grande diferencial passou a ser a capacidade de criar conexões reais. E isso não pode ser artificial. Essa coerência precisa nascer de uma cultura organizacional forte, saudável e engajada.

 

Hoje, o público não busca apenas status, mas também propósito e identificação. Segundo o relatório Global Luxury Stays Resilient Despite Economic Headwinds, publicado em 2025pela Bain & Company em parceria com a Altagamma, o mercado de luxo vive uma transformação importante, cada vez mais orientada por experiências, relacionamento e conexão emocional, e não apenas pelo produto em si. Nesse cenário, a forma como algo é entregue está diretamente ligada ao ambiente vivido pelas equipes.

 

Assim, a experiência de quem trabalha na empresa passa a ter papel estratégico na construção da marca. Ambientes saudáveis e alinhados a valores claros refletem diretamente na forma como as equipes se relacionam com clientes e parceiros, transformando a qualidade e a atenção aos detalhes em parte da cultura da empresa.

 

Também existe uma mudança importante na forma como as novas gerações enxergam o trabalho. Profissionais mais jovens querem crescer, aprender e sentir que fazem parte de algo maior. Valorizam empresas com relações mais transparentes, menos hierárquicas e com preocupação real com bem-estar e desenvolvimento. Isso impacta diretamente o segmento de alto padrão, que depende profundamente da qualidade das relações humanas. O 2025 Global Impact Report, da Deloitte, reforça que culturas organizacionais sólidas e ambientes de trabalho saudáveis são fatores centrais para fortalecer relevância, confiança e reputação no mercado. Em um momento em que autenticidade se tornou um ativo valioso, não existe mais espaço para experiências artificiais.

 

Como o luxo chega ao consumidor

A conexão emocional segue essa mesma lógica. O “charme” que o consumidor percebe em uma marca está justamente nos detalhes menos visíveis: no tom de voz, no acolhimento e na atenção dedicada em cada interação. E isso só acontece de forma genuína quando o profissional se sente valorizado, reconhecido e seguro dentro do próprio ambiente de trabalho.

 

Independentemente do segmento – seja moda, design, hotelaria ou gastronomia –, a lógica da hospitalidade precisa estar acima de uma relação puramente comercial. Um atendimento mecânico vai na direção oposta dessa experiência mais sofisticada e muitas vezes reflete uma cultura interna que falhou em cuidar das próprias pessoas. Hoje, o consumidor espera ser recebido de forma mais personalizada, buscando conexões reais e relações mais humanas. Por isso, empresas que querem construir relevância e longevidade precisam unir desenvolvimento humano e estratégia de negócio. Uma coisa não existe sem a outra. Não é possível transmitir refinamento sem cultivar esse cuidado dentro da própria empresa. O zelo precisa aparecer em toda a jornada, desde as relações internas até o contato final com o cliente.

 

Quando observamos os negócios mais admirados do mundo, percebemos que o sucesso está no equilíbrio entre eficiência e sensibilidade. Hoje, sofisticação também significa presença, escuta e atenção genuína. Mais do que impressionar, as marcas precisam criar conexões e memórias afetivas duradouras. E isso não nasce apenas de grandes investimentos ou estratégias complexas, mas de pessoas motivadas e emocionalmente conectadas ao propósito da empresa.

 

No fim, o consumidor percebe o que acontece nos bastidores. Ele identifica quando existe coerência entre discurso e prática, quando as relações são verdadeiras e quando o cuidado vai além da superfície. Em um mundo cada vez mais acelerado, automatizado e padronizado, o maior diferencial das marcas será justamente aquilo que não pode ser automatizado, ou seja, o fator humano. Porque a experiência emocional que chega ao cliente começa muito antes do produto, ela nasce no dia a dia das pessoas que constroem a marca todos os dias.

 

Esther Schattan é sócia-fundadora e diretora da Ornare

 

Foto Esther: Kenji Nakamura

Foto abertura: Shutterstock

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