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29/07/2026 - 15h00 Artigos

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: TRANSFORMAÇÃO OU NOVA FERRAMENTA DE EXCLUSÃO?


Por Carmela Borst

 

Uma das maiores revoluções tecnológicas da história está acontecendo diante de nossos olhos, e já utilizamos seus benefícios diariamente. A inteligência artificial já é responsável por criar textos, editar fotos e vídeos, analisar propostas comerciais, apoiar diagnósticos médicos e até auxiliar na elaboração de petições judiciais, além de atuar diretamente na tomada de decisões de empresas dos mais diversos setores. No entanto, você já se perguntou quem realmente está fazendo parte dessa revolução?

 

Segundo o relatório Conectados: Tecnologias Digitais para a Inclusão e o Crescimento, do Banco Mundial, apenas cerca de 3% da população brasileira possui competências digitais avançadas, posicionando o país entre os níveis mais baixos da América Latina nesse indicador.

 

Esse dado evidencia um novo paradigma: a exclusão digital. Ter um celular nas mãos não significa possuir competência digital, que podemos definir como a capacidade de gerar conhecimento, renda e oportunidades por meio da tecnologia, como a IA. Esse conhecimento mais aprofundado, por questões como desigualdade social e falta de acesso à educação de qualidade, ainda permanece distante de pessoas pretas, mulheres, comunidade LGBTQIAPN+ e também da população 50+.

 

O impacto no mercado

Dados de uma pesquisa do Datafolha apontam que 98% das empresas no Brasil são impactadas pela escassez de talentos na área de Tecnologia, revelando que a formação profissional não acompanha a velocidade da demanda do mercado. E a resposta para combater esse problema é uma só: educação.

 

Levar letramento digital, literacia em inteligência artificial e aprofundamento tecnológico para públicos não óbvios é a única maneira de enfrentar um gargalo que tende a crescer cada vez mais.

 

As necessidades das empresas crescem, as vagas aumentam, mas o conhecimento ainda está concentrado nas mãos de poucas pessoas. Ou seja: a conta não fecha. Ao mesmo tempo em que a IA acelera transformações em todos os setores, o acesso ao conhecimento necessário para participar dessa revolução segue restrito.

 

A diversidade nas empresas

Muitas empresas falam sobre diversidade, mas poucas revisam profundamente seus critérios de contratação, suas exigências técnicas e até mesmo os vieses presentes nos processos seletivos.

 

O que observamos na SoulCode é que o desafio não está na falta de talento. O Brasil possui um potencial enorme, inclusive em territórios historicamente excluídos do ecossistema de inovação. O grande gargalo está no acesso à formação de qualidade, à oportunidade do primeiro emprego e, principalmente, na quebra de preconceitos estruturais que ainda existem dentro das organizações.

 

Ao longo dos últimos anos, vimos que empresas mais maduras em cultura de inovação tendem a compreender que diversidade não é apenas uma pauta social ou reputacional, mas uma vantagem competitiva real e fator fundamental para inovação. São organizações que perceberam que equipes diversas e com repertórios diferentes produzem soluções mais criativas, mais próximas da realidade do consumidor e mais preparadas para lidar com os desafios de um mercado em constante transformação.

 

Normalmente, as empresas que apostam nos talentos formados pela SoulCode têm algumas características em comum: são visionárias, líderes em seus setores, possuem visão de longo prazo, preocupação genuína com o impacto social e econômico para o país e entendem que formar profissionais também faz parte da estratégia de negócio. Muitas delas deixaram de buscar apenas currículos prontos para investir em potencial, qualificação e diversidade de repertório.

 

O papel da área de pessoas

O RH deixou de atuar apenas como uma área operacional para assumir um papel estratégico na construção da cultura organizacional e na preparação das empresas para o futuro do trabalho.

 

Em um cenário cada vez mais impactado pela inteligência artificial, os times de Recursos Humanos passaram a ter também a responsabilidade de repensar quais competências realmente importam e quais barreiras ainda impedem o acesso de novos talentos ao mercado de tecnologia.

 

Mais do que buscar profissionais “prontos”, cresce a percepção de que é preciso investir em formação contínua, diversidade de repertório e desenvolvimento humano. Afinal, em um mercado transformado pela IA, a capacidade de aprender, se adaptar e colaborar se tornou tão importante quanto o domínio técnico.

 

A inteligência artificial traz uma oportunidade histórica de democratizar acesso, produtividade e inovação. Mas isso só será possível se tivermos coragem de ampliar quem participa dessa construção. Caso contrário, corremos o risco de transformar a revolução em uma nova ferramenta de exclusão.

 

Carmela Borst é cofundadora e CEO da edtech SoulCode

 

Foto Carmela: Ana Paula Paiva

Foto abertura: Shutterstock

 

 

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