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02/03/2026 - 09h55 Artigos

Quando liderar custa demais – A dor invisível da mulher nas organizações

O avanço é lento, mas o desgaste é rápido, lembra Clarissa Medeiros em sua coluna


Por Clarissa Medeiros*

 

Março chega. Flores, campanhas, discursos sobre força feminina.

Mas existe uma pergunta que raramente aparece nos painéis corporativos: quanto está custando, emocionalmente, para uma mulher permanecer na liderança?

 

Não estou falando apenas de esforço. Estou falando de existência.

Porque muitas mulheres não estão apenas liderando. Estão sobrevivendo.

 

O avanço que não acompanha o peso

É verdade: houve progresso. O relatório Women in the Workplace 2024, da McKinsey & Company em parceria com a LeanIn.Org, mostra que mulheres ocupam cerca de 29% dos cargos de alta liderança. É o maior percentual já registrado no estudo.

 

Mas o mesmo relatório revela algo inquietante: na primeira promoção para cargos de gestão, a cada 100 homens promovidos, apenas 81 mulheres avançam. A desigualdade não começa no topo. Ela começa no primeiro degrau.

 

Avançamos? Sim. Na velocidade necessária? Não. E enquanto esse avanço é lento, o desgaste é rápido.

 

A sobrecarga que ninguém quer ver

No Brasil, dados do IBGE indicam que mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais aos cuidados domésticos e familiares em comparação aos homens.

 

Agora some a isso a liderança de equipes, metas agressivas, pressão por resultados, necessidade constante de provar competência.

 

Segundo a pesquisa Women @ Work 2023, da Deloitte, quase metade das mulheres relata níveis elevados de estresse. Uma em cada três considera deixar o emprego por questões de saúde mental. Isso não é detalhe estatístico. É um alerta sistêmico. Porque quando o estresse deixa de ser pontual e se torna crônico, ele corrói identidade. Ele instala um estado permanente de alerta. Ele cria um tipo de cansaço que não é apenas físico, é existencial.

 

Quantas mulheres você conhece que dizem: “Eu amo o que faço, mas não sei se consigo continuar assim?”

 

O impacto não é sutil. É dramático. Há uma narrativa confortável que fala em “microagressões”. Mas para quem as vivencia, elas não são micro. São interrupções constantes em reuniões. São ideias apropriadas por colegas. São avaliações enviesadas. É o comentário sobre tom de voz. É a maternidade transformada em suspeita de comprometimento. É o assédio moral naturalizado como “pressão normal”.

 

Não é sutil. É repetitivo. É acumulativo. É desumanizador.

 

E o que isso produz? Silenciamento.

 

Mulheres que falam menos para evitar conflito. Que suavizam opiniões para não parecerem “difíceis”. Que trabalham mais para compensar preconceitos invisíveis. Que se adaptam tanto que começam a se perder de si mesmas.

 

A dor maior não é a crítica explícita. É a sensação de invisibilidade. De não ser completamente vista. De precisar provar, provar, provar — e ainda assim não ser plenamente reconhecida.

 

Autenticidade: o ato mais revolucionário

Durante muito tempo, liderar significou se adaptar a um modelo que não foi desenhado para mulheres. Mas, talvez, a verdadeira revolução não seja ocupar o modelo existente, seja criar outro.

 

É poder liderar sem dissociar sensibilidade e firmeza. Sem escolher entre performance e humanidade. Sem fragmentar identidade para caber na cultura.

 

A pergunta é desconfortável: as organizações realmente querem mulheres autênticas na liderança? Ou querem mulheres que performem dentro de um modelo já estabelecido?

 

O risco que o mercado não está calculando

Os índices atuais de estresse feminino não são apenas um tema de RH. São um risco estratégico.

 

Se mulheres talentosas começam a concluir que o preço é alto demais, o mercado perde competência, diversidade cognitiva, inteligência emocional e capacidade adaptativa.

 

Em Rising Together: How We Can Bridge Divides and Create a More Inclusive Workplace, Sally Helgesen lembra que não há avanço sustentável se continuarmos divididos.

 

É mais que uma agenda “das mulheres”. Estamos falando de uma agenda de viabilidade organizacional.

 

Sem colaboração real — entre homens e mulheres — não haverá transformação estrutural.

 

E acredito que seja essa, a grande inflexão de março:

Não basta apenas uma inclusão simbólica. Estamos falando de sobrevivência sistêmica.

 

Março precisa ser mais do que homenagem

Celebrar é importante, mas revisar estruturas é urgente. Porque enquanto a invisibilidade e o silenciamento forem experiências comuns, a liderança feminina continuará sendo uma travessia solitária — e exaustiva.

 

A pergunta que devemos fazer neste mês é simples e radical: estamos criando organizações onde mulheres podem prosperar — ou apenas suportar?

 

Se a resposta for a segunda, não é apenas a liderança feminina que está em risco. É o próprio futuro das organizações.

 

*Clarissa Medeiros é CEO da Clarity Global

 

 

Foto: Karime Xavier

 

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