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09/09/2025 - 16h08 Artigos

Controle rígido e demissões: a contradição do banco entre o discurso e a prática

David Braga, presidente da ABRH-MG, frisa: tempo de conexão não deve ser confundido com produtividade


 

Por David Braga*

 

No fim do ano, uma campanha publicitária com uma artista famosa exaltava respeito, esperança e humanidade. Mas, na prática, o que se vê é controle, falta de confiança e demissão em massa. Ontem, estampado em vários meios de comunicação, acompanhamos a notícia de que mais de 1.000 profissionais foram demitidos por um renomado banco, após terem sua produtividade rigidamente monitorada no modelo de home office.

 

É óbvio que todos precisam entregar resultados afinal, até uma ONG necessita gerar rentabilidade para se manter perene. Mas a reflexão que trago aqui diz respeito aos modelos antiquados de gestão de pessoas. Em vez de incentivar a gestão por performance, ainda se reforçam práticas de poder e controle. Depois, não entendemos por que somos o país mais ansioso do mundo e o segundo com maiores índices de burnout, atrás apenas do Japão.

 

O recado para empresas e lideranças é claro: em pleno 2025, insistir em práticas de controle excessivo e gestão baseada no medo é retroceder. O mercado exige resultados, sim, mas eles só são sustentáveis quando construídos com respeito, comunicação transparente e uma liderança verdadeiramente humanizada. Profissionais não querem apenas salários: buscam propósito, confiança e equilíbrio; ignorar isso é correr o risco de perder talentos, manchar a reputação e comprometer a própria perenidade do negócio. A inovação que o mundo atual pede não está em métricas frias, mas em culturas organizacionais que unem performance e humanidade. Essa é a verdadeira vantagem competitiva.

 

Vale ressaltar que a gestão por controle, além de questionável do ponto de vista ético, é ineficiente a médio e longo prazo. Métricas rígidas de produtividade no home office, por exemplo, ignoram fatores cruciais como criatividade, colaboração espontânea e inovação; elementos que não são capturados por softwares de monitoramento. Um profissional constantemente vigiado tende a focar em atividades mensuráveis e superficiais, em detrimento de tarefas complexas e estratégicas que exigem tempo e profundidade. O resultado é uma equipe ocupada, mas não necessariamente produtiva ou inovadora.

 

A verdadeira transformação cultural começa quando as lideranças abandonam a postura de fiscal e assumem o papel de mentor e facilitador. Líderes humanizados são aqueles que confiam, escutam ativamente, oferecem autonomia com responsabilidade e reconhecem que erros são parte do processo de aprendizado. Eles não precisam monitorar cada clique porque estão focados nos resultados finais, não no microgerenciamento das atividades. Essa mudança de chave mental requer coragem e vulnerabilidade para abrir mão de um controle ilusório em prol de uma cultura de responsabilidade adulta e compartilhada.

 

É inegável que a responsabilidade do profissional em entregar resultados é um princípio básico e imutável, independentemente do modelo de trabalho. A busca contínua por desenvolvimento de competências, a proatividade e a entrega de valor são, de fato, o que justificam a remuneração e a manutenção de qualquer vínculo empregatício. Um profissional que não performa bem no presencial dificilmente se tornará produtivo no home office por milagre; a questão central muitas vezes não é onde se trabalha, mas como se trabalha e a disciplina individual envolvida. A autorresponsabilidade é, portanto, a contraparte essencial da autonomia que os modelos remotos ou híbridos oferecem.

 

Vale destacar que é importante saber a diferença entre cobrar resultados e controlar cada passo. Cobrar resultados é justo e claro: o que importa é o que foi entregue. Já o controle excessivo fica vigiando como, quando e em quanto tempo a pessoa faz cada tarefa, o que só gera estresse e não leva a nada. Uma empresa que realmente confia nos seus funcionários deve avaliar o trabalho pelo resultado final e não pelo tempo gasto na frente do computador. Focar em controlar cada detalhe passa uma mensagem de desconfiança, que desanima até os melhores profissionais – porque são justamente eles que precisam de liberdade e confiança para fazer um trabalho excelente.

 

As organizações, que perseverarem no caminho do controle ultrapassado, colherão os frutos amargos da estagnação. Em um mundo onde a agilidade e a adaptabilidade são moedas cada vez mais valiosas, culturas baseadas no medo e na desconfiança são lentas, burocráticas e resistentes à mudança. Perdem talentos para ambientes mais livres, veem sua inovação minguar e, por fim, perdem relevância no mercado. O futuro pertence às empresas que ousam confiar, que tratam as pessoas como adultos responsáveis e que compreendem que performance sustentável e humanidade não são conceitos opostos, mas, sim, os dois lados da mesma moeda.

 

*David Braga é presidente da ABRH-MG e CEO da Prime Talent

 

 

Foto: Vini Andrade

 

 

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