Estudo constata descompasso nas empresas entre a adoção e a capacitação em IA
No Brasil, a maioria esmagadora liberou o uso no escritório, mas apenas 1/3 capacitou suas equipes
À medida que os investimentos corporativos em inteligência artificial generativa se aceleram no país, as organizações enfrentam um gargalo que não é tecnológico, mas humano, segundo o Panorama do Letramento em Dados e IA no Brasil 2026. De acordo com o estudo, realizado pela DataSchool, a liberação de ferramentas de IA tem corrido muito à frente do preparo das pessoas para utilizá-las. Nas áreas administrativas e de escritório, o uso de IA generativa já está liberado em 84% das empresas ouvidas, no entanto, apenas 32% acompanharam essa liberação com programas de capacitação ampla dos funcionários.
Em 66% das companhias, a IA circula sem que os colaboradores tenham sido preparados de forma abrangente para utilizar e avaliar criticamente os dados e resultados gerados pelas ferramentas. "Existe um volume enorme de investimentos sendo direcionado para plataformas de dados, nuvem e licenças de inteligência artificial, mas tecnologia disponível não se traduz automaticamente em valor gerado. Se as pessoas não souberem interpretar, questionar e agir sobre a informação, o investimento permanece apenas como custo no orçamento", afirma Henrique Portella, fundador da DataSchool e coordenador do estudo. Para ele, na era da IA generativa, aceitar cegamente o que o algoritmo sugere é o novo analfabetismo.
Segundo o levantamento, mais de 50% das empresas pesquisadas indicam que a área de Data & Analytics assumiu a frente do movimento de requalificação dos colaboradores. O modelo considerado ideal pelos especialistas, com atuação conjunta das áreas de Dados e Recursos Humanos, só é realidade em 9% das empresas. Em 20%, a requalificação ocorre de forma difusa, por iniciativas isoladas.
O estudo aponta ainda uma disparidade severa na distribuição do conhecimento dentro das empresas. Enquanto a capacitação em conceitos de dados e IA já alcançou a diretoria e o C-level em cerca de um terço das empresas engajadas (32%), nenhuma das organizações ouvidas registrou ter alcançado a linha de frente operacional de forma estruturada. Na linha de produção e no atendimento, o percentual de empresas com capacitação ampla recua para 26%, e a resposta mais frequente passa a ser, conforme o estudo, o uso restrito a projetos piloto (29%).
Henrique salienta que o programa que realmente muda a cultura da empresa não é o que tenta transformar todo mundo em cientista de dados, mas o que entrega fluência técnica e crítica para o comprador, o supervisor, o vendedor e o analista, que precisam tomar decisões específicas de forma rápida e assertiva. "A base de dados e a IA não são duas prateleiras separadas; formam uma jornada única de letramento, na qual a urgência da IA abre as portas e a base de dados sustenta o resultado", completa.
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