Liderança é o principal desafio na gestão multigeracional, aponta pesquisa com RHs de grandes empresas
Gestor passa a ser cobrado por habilidades que vão além do domínio técnico ou da autoridade hierárquica
A convivência entre quatro gerações no ambiente de trabalho pode estar colocando menos em xeque as diferenças de idade do que a capacidade de as empresas prepararem seus líderes para lidar com elas. Essa é uma das principais conclusões da pesquisa Panorama Nacional 2026 – Gerações: Conflitos, Oportunidades e o Futuro do Trabalho, realizada pela Cornerstone Career Services em parceria com a Crescimentum, com coordenação acadêmica do Insper.
Entre os oito temas identificados nas entrevistas com 37 executivos de RH de grandes empresas, reinvenção da liderança foi o que apresentou maior peso, com 19,4% das unidades temáticas analisadas. O assunto apareceu em 35 das 37 entrevistas. Além da frequência, chama a atenção a tensão associada ao tema. Segundo a análise de sentimentos realizada no estudo, 41% das citações relacionados à liderança apresentaram tom negativo, maior proporção entre os eixos avaliados.
Para os pesquisadores, o resultado indica uma distância entre o modelo de liderança desejado, baseado em escuta, aprendizagem, desenvolvimento e maior abertura, e aquele ainda praticado, principalmente na média gestão.
O levantamento aponta que o gestor passa a ser cobrado por habilidades que vão além do domínio técnico ou da autoridade hierárquica. Escuta ativa, gestão de conflitos, segurança psicológica e capacidade de adaptação aparecem entre os atributos associados ao novo papel da liderança.
A questão se torna ainda mais complexa diante da convivência entre baby boomers, geração X, millennials e geração Z. Mas a pesquisa sugere cautela ao atribuir comportamentos às faixas etárias: em 14 das 37 entrevistas, os executivos questionaram a ideia de explicar atitudes prioritariamente pela geração, destacando fatores como momento de vida, perfil e repertório.
Para Fernando De Vincenzo, general manager da Cornerstone Career Services, a liderança passa a ter a responsabilidade de administrar esse contexto de diferenças. “O gestor precisa traduzir estratégia, criar confiança e mobilizar pessoas que não necessariamente pensam, trabalham ou constroem carreira da mesma maneira”, afirma.
Cuidado ganha espaço
O cuidado e a saúde mental aparecem praticamente empatados com liderança em importância, representando 19,1% das unidades temáticas. A categoria esteve presente nas 37 entrevistas e se relacionou a temas como produtividade, inovação, retenção e desempenho.
Na leitura dos pesquisadores, o resultado reforça que a agenda de Pessoas está deixando de tratar saúde mental como uma pauta isolada de bem-estar. O tema passa a se conectar à forma como o trabalho é organizado, à atuação das lideranças e à capacidade das empresas de sustentar desempenho em um ambiente de mudanças constantes.
O levantamento mostra, assim, que o debate sobre gerações pode estar apontando para uma questão mais ampla: como preparar líderes para administrar diferenças de expectativas, experiências e formas de trabalhar sem transformar essas diferenças em estereótipos.
Geração não explica tudo
O resultado da pesquisa reforça uma provocação que a Gestão RH trouxe na capa da última edição de sua revista: a convivência multigeracional não pode ser reduzida a rótulos etários. Embora profissionais de diferentes faixas de idade tenham referências, expectativas e experiências distintas, outros fatores – como momento de vida, trajetória e repertório – também influenciam a forma como cada pessoa se relaciona com o trabalho.
Na pesquisa, esse entendimento aparece em 14 das 37 entrevistas, nas quais os executivos questionaram justamente o uso da geração como principal explicação para comportamentos. O estudo aponta, assim, para uma questão que vai além da diversidade etária: como criar ambientes em que diferentes perspectivas possam conviver e contribuir, sem transformar diferenças em estereótipos.
E essa discussão coloca novamente liderança e cultura no centro e mostra que, muitas vezes, compreender as pessoas exige olhar para além da geração à qual elas pertencem.
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