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29/06/2026 - 10h57 Artigos

A engenharia jurídica da revisão de jornada na escala 5x2

Somada às novas exigências da NR-1, mudança coloca lideranças em cenário de vulnerabilidade técnica, diz advogada


Por Mariana Piva Zadra David*

 

O debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1 e sua consequente transição para o modelo 5x2 consolidou-se como o tema mais sensível e urgente das relações trabalhistas contemporâneas no Brasil. Impulsionado por uma demanda legítima por saúde mental e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, o movimento é recebido com assimetria pelo mercado. Setores de operação contínua, como o varejo, a saúde e a indústria, enfrentam o desafio de readequar suas malhas logísticas e operacionais.

 

Contudo, o verdadeiro teste para a resiliência corporativa reside na fronteira menos óbvia da capacidade de executar essa transição, isso sem converter a reestruturação em um passivo trabalhista sistêmico e sem deflagrar uma crise de adoecimento ocupacional. Esse cenário ganha contornos mais complexos com a implementação da nova e famosa NR-1. A convergência entre a mudança de jornada e as novas exigências de saúde ocupacional encontra as lideranças em um cenário de clara vulnerabilidade técnica.

 

Segundo dados do estudo estruturado pela Robert Half em parceria com a The School of Life, 35% dos líderes seniores admitem não saber como apoiar suas organizações no cumprimento das diretrizes da NR-1. Mais alarmante ainda é que apenas 27% dos gestores avaliam que suas companhias possuem prontidão estrutural e emocional para absorver os impactos psicológicos dessas transformações sobre as equipes. Se a governança do bem-estar já se mostrava deficitária em tempos de estabilidade, o estresse gerado por uma transição abrupta de jornada pode funcionar como um catalisador de litígios.

 

O erro estratégico mais recorrente e juridicamente oneroso é a tentativa de comprimir a produção histórica de 44 horas semanais para o teto de 40 ou 38 horas, sem a devida recalibragem de processos ou investimentos em infraestrutura tecnológica. Exigir o mesmo output operacional em um intervalo de tempo reduzido e sem o aporte de ferramentas de automação ou redimensionamento de headcount, configura o agravamento do risco psicossocial.

 

Sob a ótica do Direito do Trabalho, a alteração unilateral de metas produtivas para compensar a redução de dias úteis pode ser tipificada como alteração contratual lesiva, violando o artigo 468 da CLT e abrindo margem para pleitos indenizatórios.

 

A produtividade não pode ser extraída do estrangulamento do capital humano. O histórico déficit de produtividade da força de trabalho brasileira, que posiciona o país em uma incômoda 94ª colocação no ranking global da OIT (Organização Internacional do Trabalho), não decorre da falta de esforço individual, mas da baixa maturidade tecnológica e da obsolescência processual das companhias. Relatórios globais da consultoria McKinsey sobre a sustentabilidade do trabalho apontam que o esgotamento profissional reduz a eficiência operacional em até 30%. Transferir essa ineficiência estrutural para a carga psíquica do trabalhador é um equívoco de gestão que compromete o valor econômico da empresa a médio prazo.

 

É precisamente nesse ponto que a nova NR-1 intersecta a reestruturação das jornadas. Ao impor a obrigatoriedade de inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), a norma eleva a pressão por produtividade ao status de risco legal quantificável. O nexo causal entre metas abusivas decorrentes da transição de escala e o desencadeamento de patologias como a Síndrome de Burnout e transtornos de ansiedade está desenhado. Ignorar essa matriz de risco expõe as corporações não apenas a autuações administrativas pelos órgãos fiscalizadores, mas a passivos indenizatórios por assédio moral e doenças do trabalho.

 

Para mitigar a rigidez legislativa e conferir previsibilidade financeira à transição, a engenharia jurídica recomenda o uso estratégico da negociação coletiva. Incorporar novos modelos de jornada diretamente nos contratos engessa a estrutura corporativa, devido ao princípio da inalterabilidade contratual lesiva.

 

Em contrapartida, a pactuação de Acordos Coletivos de Trabalho com os sindicatos institui um ambiente de segurança jurídica ideal para a implementação de períodos de teste. Com validade limitada a até dois anos e amparados pela prevalência do negociado sobre o legislado, os instrumentos viabilizam cláusulas de flexibilização de horários, compensações modulares e regras específicas de produtividade, permitindo à empresa ajustar a operação em tempo real.

 

Paralelamente ao ecossistema sindical, a transição exige um alinhamento cirúrgico de controladoria e departamento pessoal para neutralizar os chamados passivos ocultos da folha de pagamento.

 

A transmutação da escala requer uma revisão matemática imediata dos parâmetros de cálculo: a redução da jornada semanal para 40 horas impõe a alteração proporcional do divisor de horas extras e a manutenção inadvertida do divisor antigo em cenários de jornada reduzida é um passaporte para condenações na Justiça do Trabalho. Adicionalmente, as empresas devem mapear estritamente o teto de horas suplementares, já que a redução da jornada regular não expande o limite legal de duas horas extras diárias.

 

Com o encurtamento do tempo de tela e de permanência física nas dependências da empresa, o direito à desconexão ascende como fator crítico de governança, balizado pelo princípio da primazia da realidade. Políticas de compliance digital e manuais internos que proíbem comunicações corporativas via WhatsApp ou e-mails institucionais fora do expediente são manifestações salutares de boa-fé, mas perdem eficácia jurídica se desmentidas pela prática cotidiana.

 

Se as evidências digitais demonstrarem que o colaborador permaneceu sob regime de cobrança ou monitoramento em seus dias de descanso, a empresa sofrerá condenações por horas extras ou regime de sobreaviso. A governança do tempo livre passa a exigir ferramentas de bloqueio de acessos aos sistemas fora da jornada acordada.

 

Mudar a cultura de tempo para uma cultura de eficiência passou de escolha a exigência para a perenidade. Embora o mercado visualize a transição com reservas focadas nos custos imediatos de transição, a adoção de escalas mais flexíveis e humanizadas já se converteu em vetor de atração e retenção de talentos altamente qualificados, conversando diretamente com os critérios de sustentabilidade humana exigidos pelo mercado de capitais.

 

O sucesso dessa transição pertencerá às organizações cujas lideranças compreenderem que o incremento de produtividade deve ser extraído da inovação tecnológica, do desenho de processos inteligentes e da segurança jurídica, e nunca do esgotamento da saúde mental de seus colaboradores.

 

*Mariana Piva Zadra David é sócia da área Trabalhista  do escritório Marcos Martins Advogados

 

 

Foto: Divulgação/Marcos Martins Advogados

 

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